Frentes de oposição são tradicionais no Brasil e datam ainda dos tempos do Império. Na época do bipartidarismo, no governo militar, abrigou sob o Movimento Democrático Brasileiros políticos de esquerda, de centro e de direita. Quando Arena e MDB deixaram de existir, a sigla oposicionista se manteve, com uma letra “P” à frente do nome, mas viu alguns de seus integrantes saírem para aderir ao PT, PCB, PC do B, PFL e até o PDS (novo nome da legenda arenista).
Nas eleições de 2022, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva veio com a ideia de que uma frente oposicionista deveria ser criada para derrotar seu oponente, o então presidente Jair Bolsonaro. Essa ideia encantou alguns eleitores que rejeitavam o estilo bolsonarista e acreditaram na balela de um governo de coalizão. O que se viu, porém, foi uma equive de governo muito mais de esquerda do que de centro, como esperavam certos analistas políticos.
Agora, em 2026, outra frente oposicionista é esperada – só que unindo o centro e a direita. Mais uma vez, é uma união de forças que tentam surfar na onda de rejeição ao governo. Mas, por enquanto, essa aliança está apenas no plano das ideias e é ainda algo almejado por Flávio Bolsonaro.
Na aritmética dos bolsonaristas, Flávio pode herdar os votos de Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos em um segundo turno (juntos, esses candidatos têm cerca de 10 pontos percentuais nas pesquisas). Isso seria suficiente para dar a vitória a Flávio na etapa final do pleito. Mas essa possibilidade não é exatamente que se vê nas pesquisas, que apontam uma vantagem de Lula sobre o senador fluminense por 3 a 4 pontos percentuais no segundo turno.
A pesquisa Datafolha divulgada na última sexta-feira coloca um pouco de luzes sobre a migração de votos do primeiro para o segundo turno. Dos eleitores de Renan Santos, por exemplo, somente 48% declaram que votariam em Flávio. Esse índice é de 54% entre quem apoia Ronaldo Caiado e 60% entre os partidários de Romeu Zema.
Essa pesquisa pode parecer incoerente aos olhos dos bolsonaristas. Mas lembremos que o estudo “A Cara da Democracia”, realizado em conjunto por universidades como UFMG, Unicamp, UnB e UERJ, mostrou que 22% dos eleitores de Tarcísio de Freitas também votaram em Lula em 2022. Muitas vezes, o eleitor não está preocupado com coerência ideológica e acaba escolhendo seus candidatos com base em nomes, não de propostas. No caso dos apoiadores de Renan, Caiado e Zema, há também aqueles que preferem não escolher nem Lula nem o filho do ex-presidente, ficando em casa, votando em branco ou anulando seu voto.
Flávio provavelmente não consegue converter uma parte dos eleitores de direita ainda por conta do caso Dark Horse e de seus desentendimentos com a madrasta Michelle Bolsonaro. Tanto é que ele estava ultrapassando Lula nas pesquisas quando eclodiu o episódio de suas tratativas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Com os vazamentos, ele retrocedeu bastante nos meses que se seguiram. Agora, porém, parece estar reagindo, mas o caminho pela frente ainda é curto.
O comando do PL acredita que, no segundo turno, não haverá outra alternativa aos centristas e direitistas a não ser votar em seu candidato. Essa percepção vem aumentando com os desdobramentos do escândalo do INSS, cujo inquérito tem mostrado a atuação desenvolta de Fábio Luís, o filho do presidente, junto à lobista Roberta Luchsinger. Para piorar, o ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, também teve mensagens interceptadas. Revelou-se que ele havia recebido dinheiro de Luchsinger, além de ter suas despesas pagas pela amiga de Lulinha.
Dessa forma, o escândalo do INSS, um dos mais hediondos que se tem notícia na história brasileira, caiu do colo do presidente, que viu pessoas muito próximas envolvidas com a operadora de Antonio Carlos Camilo Antunes, o careca do INSS, o epicentro do caso.
O envolvimento de Lulinha e de Marcola no caso acabou reduzindo a dianteira que o presidente havia conquistado sobre Flávio. Esse desgaste chegou ao final ou Flávio ainda pode retomar a dianteira? No Brasil, tudo é possível. Especialmente quando o mote extra-oficial de um candidato é mostrar ele seria a alternativa menos pior, uma vez que o adversário tem mais acusações do que o desejável.
A eleição de 2026, portanto, segue indefinida, mas o momento parece pertencer a Flávio. O escândalo do INSS colocou o Palácio do Planalto na defensiva justamente no período em que a campanha se intensifica. Cada nova revelação sobre Fábio Luís e Marco Aurélio Santana Ribeiro pode corroer ainda mais a imagem de um governo que já enfrentava dificuldades para se apresentar como equidistante das acusações de corrupção.
Flávio, por sua vez, parece ter encontrado no desgaste alheio o combustível que lhe faltava depois do caso Dark Horse. Resta saber se os próximos dias serão suficientes para transformar essa janela de oportunidade em vantagem consistente até outubro ou se o desgaste de Lula se estabilizará antes que Flávio consiga capturar, de fato, os votos de Caiado, Zema e Renan Santos. Por enquanto, são sufrágios que a aritmética partidária promete, mas que as pesquisas ainda não confirmam.