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Amapá Minerals tenta virar a página — e BTG vê produção acima de 100 mil onças

Lorena Scavone Giron
20 de agosto de 2026
Banco inicia cobertura com recomendação de compra e preço-alvo de CAD 1,80; retomada após quase quatro anos parada é vista como uma história de turnaround, mas riscos operacionais seguem no radar

Depois de quase quatro anos fora de operação, a Amapá Minerals tenta transformar um ativo marcado por problemas financeiros e operacionais em uma nova história de crescimento no mercado de ouro. O BTG Pactual acredita que há espaço para isso e iniciou a cobertura da mineradora, listada na Bolsa de Toronto sob o ticker AMAP, com recomendação de compra e preço-alvo de CAD 1,80 por ação.

O próprio título escolhido pelo banco para o relatório, “A Second Life”, resume a tese. A mina de Pedra Branca do Amapari, no Amapá, já produziu mais de 1,5 milhão de onças de ouro ao longo de sua história, mas teve a produção suspensa em agosto de 2022. Desde então, passou por recuperação judicial, troca de controle e uma reestruturação que reduziu a dívida em cerca de 65%.

A Starboard assumiu o controle em 2025 e hoje detém cerca de 59% da companhia. A nova gestão reformou a infraestrutura existente e conseguiu produzir a primeira barra de ouro em maio deste ano, um marco que, para o BTG, reduz parte do risco inicial da retomada.

De 18 mil para mais de 100 mil onças

É daqui para frente, porém, que a conta começa a ficar mais interessante.

O BTG estima produção de 18 mil onças em 2026, aumentando para 70 mil em 2027, 91 mil em 2028 e mais de 100 mil onças a partir de 2029. No mesmo período, o Ebitda projetado pelo banco salta para US$ 107 milhões em 2027 e US$ 212 milhões em 2029.

Um dos trunfos da companhia é não precisar construir toda a operação do zero. A Amapá Minerals já dispõe de uma planta CIL com capacidade de processamento de 10 mil toneladas por dia, além de infraestrutura de energia e operação. Na visão do banco, isso reduz tempo e capital necessários para a retomada em comparação com um projeto greenfield.

O ativo conta ainda com 1,13 milhão de onças em reservas provadas e prováveis, o que sustenta aproximadamente dez anos de vida útil no atual plano de lavra.

O ouro que está debaixo da mina

A principal opção de crescimento além do plano atual está em Urucum North, projeto subterrâneo localizado abaixo da mina a céu aberto.

O BTG não incorpora esse projeto ao valor-base da companhia, mas calcula que a operação subterrânea poderia acrescentar entre 50 mil e 70 mil onças anuais de produção. Em um cenário de maturidade, o custo total de produção poderia cair para menos de US$ 2 mil por onça.

O estudo de Urucum North indica ainda potencial para levar a produção combinada a aproximadamente 150 mil onças por ano. A mineralização subterrânea possui teores superiores aos das reservas atuais a céu aberto, fator que pode melhorar margens caso o projeto avance.

Há também espaço para novas descobertas. A companhia controla cerca de 159 mil hectares no Escudo das Guianas, dos quais menos de 10% foram sistematicamente explorados, segundo o relatório.

O passado ainda pesa

O relatório, no entanto, está longe de tratar a retomada como uma aposta sem riscos. Para o BTG, a principal questão não é a existência de ouro, mas a capacidade de execução da nova gestão.

A mina passou por mais de nove controladores desde 1994 e sofreu um colapso de parede em 2021, que afetou fortemente a produção. O histórico inclui ainda endividamento elevado, problemas de hedge e recuperação judicial.

Outro ponto de atenção é a capacidade de armazenamento de rejeitos. Além disso, por ser uma empresa com um único ativo em produção, qualquer problema geotécnico, regulatório, trabalhista ou operacional tem impacto direto sobre os resultados. A companhia também não possui programa de hedge, ficando integralmente exposta às oscilações do preço do ouro.

É justamente esse histórico que ajuda a explicar o desconto aplicado pelo BTG à avaliação da mineradora. O banco calcula um valor patrimonial líquido (NAV) de aproximadamente US$ 878 milhões, mas utiliza múltiplo-alvo de apenas 0,65 vez o NAV para chegar ao preço-alvo de CAD 1,80.

A tese, portanto, é menos sobre descobrir uma nova jazida e mais sobre provar que uma mina conhecida pode finalmente operar de maneira consistente. Para a Amapá Minerals, a “segunda vida” mencionada pelo BTG dependerá justamente disso: mostrar que o turnaround funciona depois que o ouro voltou a sair da mina.

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