PATROCINADORES

Vivemos em uma bolha digital; e a redoma do mundo físico, como furá-la?

Aluizio Falcão Filho
22 de agosto de 2026

Convencionou-se dizer que vivemos ilhados em nossa bolha digital, apenas interagindo com aquelas pessoas que pensam como nós ou têm o mesmo estilo de vida. Mas essa bolha também extrapola o mundo tecnológico. Com o tempo, vamos criando a nossa própria redoma na vida real. Nossos amigos, hábitos e locais que frequentamos muitas vezes permanecem os mesmos durante anos a fio.

Restaurantes e bares têm um lugar importante no universo particular que criamos para nós. É por essa razão que existem muitas pessoas que ficam repetindo certos locais a arriscar conhecer novos estabelecimentos. Sou uma dessas. No último ano, foi ao mesmo local em pelo menos metade dos almoços de sábado. Isso tem algumas vantagens: você é chamado por seu nome, os garçons conhecem suas preferências e sua mesa estará sempre disponível (ou pelo menos você avançará algumas casas na fila de espera).

Reconheço, porém, que esse comportamento estreita percepções e nos impede de ampliar horizontes e renovar o repertório. Foi por isso que eu e Cris aceitamos o convite para visitar o Formosa Hi-Fi (imagem) no centro da cidade. Mas não é tão simples entrar nesse lugar: a fila de espera é longa e interminável. Felizmente, Ricardo Lordes e Cecília Duarte, que nos chamaram, são sócios e tinham acesso a uma entrada especial.

Se alguém dissesse a vocês que iria fazer um bar de audição – no qual as pessoas vão mais para ouvir música do que para papear – e que o local iria ficar em um subsolo do viaduto do Chá, qual seria a sua opinião? Ah, um detalhe: o local ficou fechado por décadas e estava cheio de entulho. Felizmente, o empresário Facundo Guerra estava certo ao imaginar um bar como esse, que fica absolutamente lotado aos finais de semana.

Trata-se de um lugar com uma herança cultural peculiar. O local é uma espécie de continuação da passagem subterrânea que liga a Praça Xavier de Toledo ao viaduto do Chá. O espaço foi reclamado em 1938 pelo diretor do Departamento de Cultura do município de São Paulo, cuja intenção era fazer um espaço dedicado às artes e ancorado por um restaurante que ofereceria pratos brasileiros. Quem era esse diretor? O escritor Mário de Andrade, que abraçou a ideia do amigo e jornalista Paulo Duarte e se empenhou para realizar o projeto.

A intenção, porém, nunca saiu do papel e o espaço foi utilizado para abrigar uma escola de balé ou ensaios musicais esporádicos (o show “Falso Brilhante”, de Elis Regina, que ficou meses em cartaz no Teatro Bandeirantes, rendendo um disco homônimo, foi ensaiado lá).

Quando Facundo visitou o local, estava tudo cheio de refugos e precisando de uma reforma abissal. Felizmente, ele teve uma visão original e vencedora para o lugar, que é uma delícia. Um deejay coloca discos de vinil para rodar, misturando sucessos e pérolas dos anos 1960, 1970 e 1980 com músicas bregas divertidas. A decoração, que evoca a década de 1960, é especial e combina bastante com o público eclético.

Aliás, sobre os frequentadores: não espere uma clientela “vanilla”, como dizem os americanos. A frequência exala diversidade e originalidade. Mas a sugestão é para quem deseja sair da própria bolha e entrar em contato com um mundinho diferente, lembra-se?

Furar a redoma não depende de gestos grandiosos: basta aceitar um convite que tire você da rota conhecida, deixando-se levar pela curiosidade. Saí do Formosa Hi-Fi com a certeza de que a cidade continua cheia de surpresas para quem se dispõe a procurá-las fora do próprio quintal. A bolha talvez nunca se rompa de vez, mas cada endereço novo pode ser uma rachadura no refúgio das coisas conhecidas e reconhecidas. Abrir nossos olhos para os mundos que estão paralelos à nossa existência é sempre bom, pois amplia nossa mente e rejuvenesce nossas almas.

Gostou do conteúdo? Inscreva-se e receba a newsletter de MONEY REPORT

COMPARTILHE:

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PATROCINADORES

Leia também