Daqui a nove dias tem início o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão. Durante muito tempo, esse período foi esperado com ansiedade por políticos e marqueteiros, pois seria um divisor de águas nas campanhas. Nos programetes radiofônicos e televisivos, haveria a possibilidade de passar propostas e características dos candidatos para milhões de pessoas de uma só vez. Foi assim, por exemplo, que o médico Enéas Carneiro (imagem) se tornou conhecido nacionalmente com apenas quinze segundos na campanha da TV em 1989. Na eleição seguinte, em 1994, chegou em terceiro lugar no pleito, com 4,5 milhões de votos, atrás apenas de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.
A importância do horário eleitoral gratuito, no entanto, dilui-se desde então. Com o advento da internet, daTV a cabo e do streaming, além do desinteresse das novas gerações pelas mídias tradicionais, o público passou a dar menor importância às mensagens partidárias que passam obrigatoriamente na televisão e nas ondas radiofônicas.
Antes, as emissoras de TV eram praticamente a única opção de lazer noturno que as famílias tinham, não importava a classe econômica. Hoje, no entanto, uma parte considerável dos brasileiros não vê mais TV aberta durante a programação normal. E este contingente de pessoas não deve sintonizar os canais abertos justamente para ver o que dizem os políticos.
Um recorte específico da última pesquisa BTG/Nexus mostra que os eleitores de baixa renda e os aposentados são aqueles que ainda se interessam muito pela propaganda gratuita. Entre quem ganha entre um e dois salários-mínimos por mês, 76% têm muito interesse em ver as mensagens dos candidatos pela TV e pelo rádio. Entre quem ganha acima de cinco salários-mínimos, entretanto, esse índice é de 35%.
Mesmo assim, uma outra pesquisa, esta do Instituto Quaest, mostra que 35% dos eleitores que ganham até dois salários-mínimos se declaram independentes. Como esse extrato eleitoral deve decidir a eleição polarizada, isso quer dizer que ainda vale a pena investir nesse tipo de comunicação.
Somente quatro candidatos à presidência terão tempo no horário gratuito que começa em 28 de agosto: Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Augusto Cury. Romeu Zema e Renan Santos estão fora porque seus partidos (Novo e Missão, respectivamente) não conseguiram cumprir os requisitos da chamada cláusula de barreira (mínimo de votos nacionais ou tamanho de bancada de deputados federais).
Destes, o presidente é quem tem o maior tempo de campanhas, cerca de cinco minutos e meio, seguido por Flávio, com pouco mais de quatro minutos. De qualquer forma, uma programação muito extensa nestes blocos de propaganda não é exatamente uma garantia de vitória.
O deputado federal Ulysses Guimarães, por exemplo, tinha cerca de 22 minutos diários no horário eleitoral de 1989. O chamado Sr. Diretas parecia gravar seus programas a contragosto, tinha uma dicção ruim e terminava seus pronunciamentos com um gesto que foi apelidado pelos adversários de “xô, galinha”. Seu programa eleitoral parecia uma tortura para os telespectadores – e para o próprio candidato. Resultado: Ulysses chegou em sétimo lugar, perdendo para Fernando Collor, Lula, Leonel Brizola, Mario Covas, Paulo Maluf e Guilherme Afif. Uma boa comunicação ajuda em um pleito; mas sem um bom candidato, não tem marqueteiro que resolva a parada.