Executivos discutem os impactos da inteligência artificial sobre estratégia, liderança e infraestrutura e apontam caminhos para novos modelos de negócio
O VII Innovation Day, promovido nesta segunda-feira (17) por MONEY REPORT, reuniu executivos e empreendedores para discutir os desafios impostos pela inteligência artificial a empresas e profissionais. Sob o tema “Os desafios pós-IA para pessoas e empresas”, o encontro colocou no centro do debate não apenas a adoção de novas ferramentas, mas as transformações provocadas pela tecnologia na estratégia, na liderança, na qualificação das pessoas e na própria construção dos negócios.
Mediado pelo publisher Aluizio Falcão Filho, o painel mostrou diferentes perspectivas sobre uma jornada que ainda está em seus primeiros estágios. Entre os pontos que atravessaram a discussão estiveram a substituição de tarefas de execução pela IA, a necessidade de profissionais mais críticos e curiosos, a revisão da infraestrutura tecnológica das companhias e o surgimento de produtos e interfaces que podem alterar a maneira como pessoas interagem com a tecnologia.
Marco Castro, CEO da PwC Brasil, colocou o fator humano no centro dessa transformação. Para ele, a nova liderança precisa estimular profissionais a reaprender, manter a curiosidade e abandonar a reprodução automática de modelos do passado. Castro destacou que a tecnologia representa apenas parte do desafio e chamou atenção para a necessidade de requalificação da força de trabalho. A PwC prepara um estudo sobre os impactos que o Brasil poderá enfrentar caso não avance na inclusão e na preparação educacional dos profissionais para essa nova realidade.
Guga Stocco, fundador da RedMind Creative Capital, defendeu que a IA desloca boa parte do trabalho de execução para as máquinas, aumentando o peso da estratégia, da análise e, principalmente, da capacidade de fazer as perguntas certas. Em uma de suas principais provocações, Stocco afirmou que compreender os produtos do futuro exigirá abandonar paradigmas atuais, inclusive o smartphone. Com big techs investindo em dispositivos como óculos inteligentes e novos devices, ele projetou um cenário no qual agentes de IA poderão organizar compromissos, realizar compras e contratar serviços de forma autônoma. “Você precisa tirar o celular da sua frente e falar: o que eu posso imaginar?”, resumiu.
Emerson Lima, CEO da Sauter, chamou atenção para uma camada menos visível da corrida pela IA: a infraestrutura necessária para sustentá-la. Dados, telecomunicações e sistemas legados precisarão ser reorganizados para que empresas tradicionais consigam extrair da tecnologia o mesmo valor de negócios que já nascem estruturados em torno dela. Lima também provocou ao afirmar que “estamos vivendo os piores modelos que nós vamos viver”, indicando que as capacidades atuais da IA ainda representam apenas o começo. Para ele, até companhias consideradas altamente tecnológicas precisarão rever seus modelos à medida que agentes assumam parte das interações hoje feitas diretamente pelos consumidores.
Marcelo Ramos, CEO do Kesh, trouxe a ferramenta para o conceito de IA como infraestrutura corporativa. O executivo questionou se as empresas não deveriam oferecer aos colaboradores acesso, treinamento e estruturas adequadas para que cada área consiga explorar a tecnologia de acordo com suas necessidades. Ramos também apresentou aplicações desenvolvidas pelo Kesh no segmento de pagamentos, incluindo soluções que utilizam IA e identificação do usuário para permitir transações por canais como o WhatsApp. Para ele, empresas que nascem agora têm a oportunidade de estruturar seus negócios desde o início dentro dessa nova lógica.
Rafael Albuquerque, fundador e CEO da Zoox Smart Data, mostrou como a adoção da IA já está modificando processos internos de desenvolvimento. Na Zoox, a companhia decidiu rever seu framework de tecnologia mesmo ao custo de atrasar entregas no curto prazo para antecipar resultados planejados para horizontes mais longos. A experiência também expôs um desafio na formação de profissionais: segundo Albuquerque, a IA “exponencializa a burrice e a preguiça, como exponencializa a inteligência”. Por isso, a empresa passou a valorizar ainda mais profissionais curiosos e com capacidade crítica para avaliar aquilo que a tecnologia produz.
Simone Sancho, fundadora e CEO da Belong Be, ampliou a discussão para as consequências humanas da transformação. Para ela, se a execução se torna uma commodity, modelos de educação, formação profissional e organização do trabalho também precisam ser repensados. Sancho destacou capacidades humanas ainda difíceis de reproduzir, como empatia, leitura da comunicação não verbal e intuição, e alertou para outro efeito da facilidade proporcionada pela IA: a dispersão. Em um ambiente no qual ideias podem virar protótipos em poucas horas, o diferencial deixa de ser apenas criar e passa a ser escolher onde concentrar esforços e persistir.
Guilherme Kato, CPTO Latam da TotalPass, dividiu a estratégia da companhia em três frentes: transformação interna, desenvolvimento da liderança e aplicação da IA ao produto. Para ele, curiosidade é uma característica fundamental dos líderes nesse processo, já que são eles que precisam experimentar ferramentas e estimular suas equipes a fazer o mesmo. No negócio, a TotalPass busca usar IA para avançar na hiperpersonalização, deixando de atuar apenas como uma plataforma transacional de acesso a academias e passando a compreender quais atividades e serviços podem ser mais adequados a diferentes perfis de usuários.

Apesar das diferentes perspectivas, o debate convergiu para uma conclusão: incorporar inteligência artificial não significa simplesmente adicionar uma nova ferramenta aos processos existentes. A transformação passa por rever infraestrutura, formar lideranças, qualificar profissionais, redesenhar produtos e questionar modelos de negócio construídos antes dessa nova realidade.
Se a revolução dos smartphones abriu espaço para serviços que sequer eram imaginados quando o primeiro iPhone chegou ao mercado, os participantes do Innovation Day indicaram que a IA pode provocar ruptura semelhante – mas em velocidade maior. Para empresas e profissionais, o desafio será menos descobrir como executar tarefas com inteligência artificial e mais decidir o que fazer com a capacidade que ela coloca à disposição.
Patrocínio: Total Pass, United Airlines, Urbano Vitalino Advogados, Zoox Smart Data
Apoio: Drive Select, Ícone da Visão, Kesh, Luft Logistics, PwC, Sauter
Colaboração: Sede
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