Dias atrás, li uma coluna do escritor angolano José Eduardo Agualusa no jornal “O Globo” sobre a poesia involuntária das crianças. Um exemplo disso foi o que disse sua filha, quando pequena, após subir em uma balança: “Papai, estou pesando um metro e 36 segundos”.
Crianças são capazes de tiradas muito boas e, por que não?, poéticas. Meu filho mais velho, lá pelos sete anos de idade, disse que tinha visto um documentário sobre o terremoto de São Francisco na escola e estava bastante impressionado. Me fez várias perguntas sobre a possibilidade de haver um cataclisma em São Paulo e, depois, com uma expressão pensativa, me perguntou se o terremoto de São Francisco tinha ocorrido há muito tempo.
Respondi que fazia cerca de cem anos. Ele continuou pensativo e me disse que o filme que ele havia visto era em preto em branco. “Quando o mundo deixou de ser preto e branco e virou colorido, papai?”. Eu levantei a sobrancelha direita, como faço quando fico intrigado, e não disse nada. O rosto dele, então, se iluminou e disse: “Você já foi preto e branco, né? Quando você virou colorido?”. Dei boas risadas. Ele tinha visto fotos antigas em preto e branco e achava que, como o documentário sobre o terremoto de 1906, não havia cores no mundo do passado – cores essas que apareceram no planeta de uma hora para outra.
A ingenuidade do meu filho, sem querer, tropeçou numa das metáforas mais precisas que o cinema já produziu sobre a vida adulta. Em “Pleasantville: A Vida em Preto e Branco” (imagem), de 1998, dois irmãos são transportados para dentro de um seriado dos anos 1950, um mundo literalmente sem cor, onde tudo funciona dentro de um roteiro fixo, os jantares são servidos às seis em ponto e ninguém questiona por que as coisas são como são. A cor só aparece quando alguém, ali dentro, sente algo de verdade pela primeira vez. A mãe da família destes irmãos, por exemplo, descobre a própria sexualidade e fica colorida. O dono da lanchonete recobra uma paixão antiga por pintura e também deixa de ser preto e branco. Cada personagem colore o próprio pedaço do mundo no momento exato em que deixa de repetir um roteiro e passa a sentir as coisas por conta própria.
É tentador pensar que a infância é a fase colorida da vida e a idade adulta, cinza. Meu filho até acreditava nisso ao contrário, imaginando que o mundo havia um dia trocado de paleta. Mas a lição de Pleasantville é outra, e talvez mais útil: dá para atravessar a vida inteira em preto e branco, cumprindo o roteiro, sem nunca ganhar cor nenhuma. Tem gente que nunca sai do próprio 1950 particular, nunca discutindo o horário do jantar, jamais confessando um desejo ou não arriscando uma paixão fora do combinado. Essas pessoas envelhecem, mas não evoluem: ficam cinzentas durante toda a existência.
Essa metáfora sobre as cores em meio a um cotidiano preto e branco reflete a escolha do ser humano por privilegiar o sentimento. E talvez seja por isso que a pergunta do meu filho, por mais errada que estivesse sobre como o mundo funciona, tenha acertado numa coisa que a gente esquece quando cresce: que a poesia involuntária das crianças não está só nas frases originais que elas soltam por acaso; está também nessa capacidade de tropeçar em grandes verdades sem procurar por elas.
Os pequenos produzem essas epifanias porque têm o coração aberto às descobertas e não têm medo do ridículo. Abusar da sinestesia, misturando sensações de sentidos diferentes numa mesma expressão, é típico da infância e proporciona o encanto de ouvir uma criança falar sério sobre qualquer assunto.
Meu filho, é claro, nunca ouviu falar de Pleasantville, nem sabia que estava descrevendo a diferença entre uma vida monótona e os verdadeiros sentimentos. Ele só queria saber por que eu não tinha nascido colorido. Fiquei sem resposta na hora. Mas, sem perceber, ele já tinha me dado a resposta certa: ninguém nasce colorido, a gente vai ficando, aos poucos, toda vez que ousa sentir alguma coisa de verdade. É por isso que precisamos de mais poesia involuntária. Ela é um lembrete constante para os adultos, em qualquer idade: ainda dá tempo de ganhar mais cor em nossas vidas.
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