Segundo o jornal “O Estado de S. Paulo”, 27 dos 33 candidatos do PL ao Senado defendem o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Essa proposta faz parte de uma estratégia do bolsonarismo para tentar mudar a composição do Supremo, obtendo maioria na Câmara Alta e, com isso, forçar a saída dos juízes que compõe o colegiado do STF. Quem encabeça a lista de defenestráveis é justamente Moraes.
Entende-se a ira dos bolsonaristas. Afinal, o ministro é o principal algoz de Jair Bolsonaro e, recentemente, impediu que os filhos do ex-presidente o visitassem no Dia dos Pais. Além disso, Moraes coleciona polêmicas em sua atuação, incluindo a disposição de ser uma espécie de curador de conteúdo das redes sociais, em um estilo que muitas vezes é interpretado como repressor à liberdade de expressão.
Mas essa é uma boa estratégia política?
Segundo o jornalista Thomas Traumann, na edição de ontem de “O Globo”, há uma pesquisa inédita do Instituto Quaest que mostra o problema desta tática: apenas um em cada dez eleitores consideram prioritária a defesa do impeachment de ministros do STF como fator de definição de voto. Para o eleitorado, de acordo com o estudo, o tema mais importante é a capacidade de um senador conseguir trazer verbas e obras para seu estado.
Diante disso, insistir em impedir juízes da Alta Corte pode ser um argumento bastante sedutor para quem é bolsonarista raiz. Mas não tem tanto apelo à maioria dos brasileiros. Muitos, no entanto, não conseguem enxergar isso, pois vivem imersos em uma bolha ideológica e, por isso, têm a ilusão de que a maioria esmagadora do eleitorado pensa de forma igual.
O conservadorismo tem inúmeras bandeiras que podem sensibilizar a maioria da população, como a melhoria da segurança pública, o combate à corrupção e a redução de impostos. Talvez seja melhor se concentrar nesses temas do que fazer cruzadas em torno de Moraes. Tal expediente pode prejudicar o impacto eleitoral desses candidatos e ser um erro de cálculo.
Curiosamente, alguns próceres da direita já perceberam isso e agem em outra direção. Ronaldo Caiado, por exemplo, concentrou seu discurso em segurança pública, apresentando números de Goiás como demonstração de método replicável, evitando transformar o Supremo em tema de campanha. Tarcísio de Freitas, o nome mais bem posicionado do campo, fez outro movimento interessante, ao defender publicamente a vacinação contra o sarampo em plena campanha e ao manter o foco em concessões, obras de metrô e programas sociais estaduais. Caiado e Tracísio não precisaram renunciar às próprias convicções para isso. Apenas escolheram falar daquilo que o eleitor efetivamente cobra.
O risco para os direitistas não está em cada candidatura isoladamente e sim na percepção que o conjunto projeta. Uma direita que aparece nacionalmente falando de impeachment de ministro entrega ao adversário a definição da própria pauta, permitindo que a campanha petista a descreva como uma ação de vingança institucional em vez de um projeto de país. É exatamente o oposto do que fez o campo conservador nas eleições em que venceu, quando pautou segurança, corrupção e custo de vida e obrigou o outro lado a responder.
Segurança pública lidera as preocupações do eleitorado brasileiro há anos, a carga tributária incomoda do empresário ao motorista de aplicativo e o corte de privilégios do funcionalismo tem aprovação que atravessa todos os espectros. As bandeiras estão disponíveis, são legítimas e potencialmente vencedoras. Trocá-las por uma cruzada contra um único ministro pode ser um tiro no pé – e o pé em questão não será o de Moraes.