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O debate nos estados foi contaminado pela polarização nacional

Aluizio Falcão Filho
11 de agosto de 2026

Nunca houve tanta interação entre a política regional e a nacional. De um lado, as alianças estaduais foram cruciais para definir a neutralidade do Centrão na corrida presidencial. De outro, as campanhas para os governos dos estados estão nacionalizando a campanha em detrimento de temas importância para os eleitores das unidades federativas. O debate realizado no domingo à noite entre o governador Tarcísio de Freitas e o petista Fernando Haddad é um exemplo típico do que está acontecendo no âmbito estadual.

A impressão que o telespectador teve era de que a discussão envolvia dois candidatos à presidência da República, pois pouco se falou dos desafios de São Paulo. A polarização tomou a pauta e os dois candidatos bateram forte no outro lado. Mantiveram, porém, a compostura e o debate correu sem golpes abaixo da linha da cintura.

Haddad tentou ao máximo grudar a imagem do oponente à de Jair Bolsonaro para colar a rejeição do ex-presidente no governador. Um movimento um tanto questionável, já que até os peixes do lado Ibirapuera sabem que Tarcísio somente entrou na eleição paulista por conta de seu padrinho político. A estratégia do candidato do PT provocou a seguinte reação de Tarcísio: “Você está muito focado em Bolsonaro, falando de Bolsonaro, Bolsonaro, Bolsonaro. Esquece Bolsonaro, Haddad. Você não está concorrendo contra ele. Isso foi em 2018, já passou”.

O petista também tentou associar Tarcísio ao bolsonarismo mais radical, que não é exatamente a postura do governador. “Vocês negam mudança climática, negam vacina. Teu grupo político está fazendo propaganda antivacina agora na internet. Se continuar essa loucura dos seus correligionários e apoiadores, vamos ter de volta outras doenças erradicadas”, disse Haddad.

Ocorre que o governador se vacinou durante a pandemia e, no início de seu mandato, deu a seguinte declaração: “Olho para a frente. Sempre acreditei na vacina, me vacinei, levei minha família para vacinar, postei nas redes sociais para dar o exemplo, porque eu achava que a vacina era importante”.

O problema dessa nacionalização de temas vai muito além do espetáculo televisivo. O cargo em disputa administra o maior orçamento estadual do país, comanda a maior polícia da América Latina, opera a rede de ensino que atende milhões de estudantes e responde pelo sistema de saúde que absorve a demanda de quarenta e seis milhões de habitantes. Quando o debate é sequestrado pela pauta presidencial, o eleitor perde a única oportunidade que tem de comparar propostas sobre aquilo que efetivamente será executado pelo vencedor.

Os candidatos poderiam ter se aprofundado em temas importantes para o cidadão, como segurança, educação, saúde, transporte, saneamento, habitação, situação financeira do estado e efeitos da mudança climática. Cada um desses assuntos comportaria um debate inteiro.mas nenhum deles rende engajamento em rede social. Aí está o incentivo perverso que organiza a campanha atual. Discutir cronograma de metrô ou modelo de repasse hospitalar não produz corte viral, não mobiliza militância e não aparece no recorte que circula no WhatsApp na manhã seguinte. Já atacar ou defender Bolsonaro produz tudo isso instantaneamente.

Os candidatos não são ingênuos. Eles respondem ao sistema de recompensas das redes sociais e esse sistema hoje premia a adesão ao conflito nacional e pune quem tenta discutir gestão. O resultado é que São Paulo vai eleger um governador sem ter discutido os problemas do estado e os quatro anos seguintes serão administrados por alguém que não precisou explicar publicamente o que pretende fazer durante o mandato. O prejuízo não é dos candidatos, que seguirão suas carreiras. É de quem vai depender do hospital público, da escola e do trem.

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