Daqui a exatamente uma semana os canditatos à presidência poderão começar a fazer propaganda eleitoral nas ruas e na internet. Um pouco mais à frente, em 28 de agosto, tem início o horário eleitoral gratuito na televisão. O que se viu do início do ano até agora foi uma forte troca de sopapos nas redes sociais por militantes e candidatos. O que muda com o início dos trabalhos de comunicação?
Em tese, os marqueteiros vão dividir seus recursos entre atacar os adversários e exaltar as qualidades de seus candidatos. Na prática, porém, devem apostar mais na desconstrução do outro lado do que na exaltação da própria candidatura. Isso deve ocorrer por duas razões.
A primeira: estamos em um cenário polarizado, no qual cerca de três quartos dos eleitores já decidiram seu voto. Há cerca de 20% do eleitorado que tradicionalmente deixa de escolher candidatos, seja por abstenção ou votos nulos e brancos. Portanto, a eleição será decidida por uma parcela pequena de eleitores, que pode fazer sua escolha na base do “menos pior”. Dessa forma, massacrar os adversários pode ser uma estratégia válida, embora não seja a melhor saída para um país com tantos desafios como o Brasil.
Além disso, os marqueteiros de esquerda sabem que podem impulsionar a abstenção se desiludirem o eleitor de centro. Este é um argumento que circula muito na campanha petista. Este eleitorado não quer votar no presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas está reticente em relação a Flávio Bolsonaro. Os petistas, assim, não estão preocupados em ganhar esse sufrágio – e sim engajados em fazer esse eleitor desistir de Flávio no segundo turno. Como Lula está numericamente à frente nas pesquisas, impedir que os independentes votem em Flávio seria suficiente para vencer o pleito.
Ocorre que os petistas, que vinham atacando sistematicamente o candidato do PL, ganharam um telhado de vidro nos últimos anos, com o desenrolar do escândalo do INSS. Este episódio, que já contava com algumas acusações envolvendo o filho do presidente, ganhou novos contornos com o envolvimento de Marco Aurélio Ribeiro, ex-chefe de gabinete do Planalto. Como se sabe, Marcola, como é conhecido, recebeu um empréstimo de Roberta Luchsinger, empresária que é investigada no caso.
O colunista Lauro Jardim, de “O Globo”, revelou ontem que Marcola recebeu os recursos de Roberta em 2024: um depósito de R$ 40.000,00 em sua conta corrente, combinado com o pagamento de várias contas do petista por parte da empresária. Mas, segundo o jornalista, o empréstimo só foi quitado quatro meses atrás, quando o celular de Roberta já tinha sido confiscado pela Polícia Federal e seu nome já havia sido publicado pela empresa na cobertura do caso.
Como a PF informou que encontrou outro empréstimo de Roberta para mais um colaborador de Lula no Planalto, esse caso deve ser fortemente explorado pela campanha oposicionista a partir desta semana.
O que se desenha para as próximas semanas, dessa forma, é uma campanha em que os dois lados terão munição para desconstruir o adversário e pouco incentivo para falar de si. Flávio carrega o caso Dark Horse e a proximidade com Daniel Vorcaro. Lula enfrenta o escândalo do INSS e agora um ex-chefe de gabinete com empréstimo quitado tarde demais para parecer casual. Nenhum dos dois tem interesse em transformar a propaganda em debate sobre juros, ajuste fiscal ou reforma administrativa, porque qualquer conversa sobre o futuro obriga a assumir custos impopulares diante de um eleitorado descontente.
A aposta de ambos será tornar o outro inaceitável para os poucos indecisos que restam. Neste contexto, o horário eleitoral gratuito, criado justamente para elevar o nível do debate público, deve funcionar como amplificador do que já se via nas redes sociais. O eleitor que esperava dessa campanha alguma pista sobre como o Brasil vai enfrentar seus problemas reais precisará se contentar em escolher qual escândalo tolera melhor.