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Precisamos falar sobre o voto obrigatório

Aluizio Falcão Filho
31 de julho de 2026

O instituto PoderData divulgou ontem uma pesquisa que chamou a atenção dos analistas políticos: perguntados se deixariam de ir às urnas caso o voto não fosse obrigatório, 22% dos entrevistados responderam que sim. Outros 74% garantiram que compareceriam de qualquer jeito, e 5% não souberam responder. Diante desses números, a tentação imediata é compará-los com a abstenção real que enxergamos nas últimas eleições.

Trata-se de uma comparação sedutora, porque os números praticamente coincidem. No segundo turno de 2014, 21,1% do eleitorado não apareceu. Em 2018, 21,3%. Em 2022, 20,6%. Portanto, os 22% apontados pela pesquisa parecem corroborar o comportamento observado nas últimas três eleições presidenciais.

Nesta semana, falei sobre o conceito de viés de desejabilidade social, quando os entrevistados declaram em uma pesquisa algo que não vai prejudicar sua imagem. Esse argumento tinha a ver com outro estudo, mas se encaixa perfeitamente no do PoderData.

Admitir a um entrevistador que colaborar com a democracia não é uma prioridade pode ser algo desconfortável. Para driblar esse desconforto, parte dos entrevistados prefere dizer o contrário daquilo que pensa. Dessa forma, esses 22%, provavelmente, estão subestimados.

Além disso, a pergunta pede ao entrevistado que preveja o próprio comportamento sob um regime institucional que ele nunca viveu. Não se trata de mentira nem de constrangimento, mas de incapacidade genuína de auto previsão. A pessoa se projeta no dia da eleição com a atenção que dedica ao assunto no instante da entrevista. A chance de a avaliação estar errada, nestes casos, é bem razoável.

Vejamos o que aconteceu no Chile. O país adotou o voto voluntário em 2012 sob argumentos idênticos aos que circulam por aqui, ou seja, o de que o eleitor consciente continuaria votando e apenas o voto desinformado sairia da conta. O comparecimento aos pleitos presidenciais, porém, desabou para a faixa entre 40% a 50% do eleitorado registrado. Uma década depois, o Congresso chileno restabeleceu a obrigatoriedade do voto.

Há um segundo dado no levantamento que interessa diretamente na análise da eleição de 2026. No cruzamento com intenção de voto no primeiro turno, 20% dos eleitores de Flávio Bolsonaro dizem que deixariam de votar sem obrigatoriedade, contra 11% de quem apoia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Isso pode indicar que a direita, de alguma forma, seria mais prejudicada com o fim do voto obrigatório do que a esquerda.

O debate sobre voto facultativo vai fatalmente voltar a ser discutido no Congresso a partir de 2027. Esse debate merece ser feito com os índices corretos; e o número certo de pessoas que abdicariam de votar não deve ser de 22%. Precisamos de mais estudos sobre esse tema para que os parlamentares consigam discutir esse tema com propriedade e senso de justiça.

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