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A preguiça que turbina o uso da IA

Aluizio Falcão Filho
1 de agosto de 2026

Um dos assuntos mais comentados da semana passada foi a pegadinha que o professor Jason Gibson (imagem) praticou contra uma turma de alunos. Como se sabe, Gibson mandou seus estudantes produzirem um texto comparando a revolução industrial com a implementação da inteligência artificial. No enunciado, porém, colocou uma orientação que os pupilos não poderiam ver (digitação com cor branca sobre fundo branco). Essa frase invisível dizia que o texto deveria conter uma referência nonsense à palavra “Madagascar”.

Gibson fez isso para verificar se os alunos iriam utilizar a IA na produção do texto. De uma classe de 35 estudantes, 32 tiraram nota zero, pois colocaram o enunciado na ferramenta de inteligência artificial e passaram o resultado ao professor.

Duas coisas chamam a atenção neste caso. O primeiro é a quantidade de alunos que preferiram terceirizar à IA a produzir um ensaio. Além disso, esses alunos não se deram ao trabalho nem de ler o que estavam entregando ao professor. Provavelmente, se vissem uma frase sem sentido com a palavra Madagascar, iriam retirá-la do texto final.

Outro ponto importante nessa discussão é que não estamos falando de jovens do ensino fundamental: os alunos que sofreram a pegadinha são da Alcorn State University, localizada na cidade de Alcorn, no Mississipi. Se a maioria esmagadora dos estudantes não está nem um pouco interessada em produzir ensaios para o seu curso, isso é uma má notícia para os educadores.

Diante dessa situação esdrúxula, vamos olhar os números que vêm sendo divulgados sobre o comportamento dos estudantes diante da inteligência artificial generativa. Um levantamento do Higher Education Policy Institute (HEPI), do Reino Unido, mostrou que 92% dos universitários britânicos declararam ter usado alguma ferramenta de IA em 2025, ante 66% no ano anterior. Mais revelador ainda: o percentual de alunos que recorreram a ferramentas como o ChatGPT especificamente para fazer avaliações e trabalhos saltou de 53% para 88% no mesmo período. O que aconteceu no Mississipi, portanto, não é um acidente isolado.

Esta parece ser uma tendência irreversível. Um estudo do instituto Gallup em parceria com a Lumina Foundation, divulgado em 2026, apontou que mais da metade dos universitários americanos usa inteligência artificial em suas tarefas acadêmicas pelo menos uma vez por semana, mesmo em instituições que proíbem ou desencorajam formalmente essa prática. A regra, portanto, não está impedindo o comportamento. Ela só está empurrando o uso para debaixo do tapete, exatamente como fizeram os 32 alunos de Gibson.

Diante desses números, fica difícil sustentar que a turma do Mississipi represente uma exceção lamentável dentro de um sistema educacional saudável. Ela é, na verdade, a regra levada ao extremo, sem o cuidado mínimo de disfarçar o atalho. A maioria dos estudantes que usa IA em seus trabalhos ainda edita o texto, ajusta o tom, confere as informações antes de entregar. Os alunos de Gibson pularam essa etapa. E é justamente essa pressa, esse desprezo pelo próprio produto final, que separa o uso de uma ferramenta de estudo do simples abandono do processo de aprender.

Isso deveria preocupar mais do que a notícia de uma pegadinha bem-sucedida sugere à primeira vista. Universidades formam a força de trabalho que qualquer empresa vai contratar nos próximos anos. Se um em cada dois formandos já trata a produção de conhecimento como uma etapa terceirizável e descartável, o desafio deixou de ser pedagógico para se tornar econômico. Por isso, a pegadinha de Gibson não expôs uma turma displicente. Expôs, com uma precisão quase cruel, o tamanho real do problema.

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