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Quando os entrevistados não dizem a verdade nas pesquisas

Aluizio Falcão Filho
29 de julho de 2026

Falar mal de pesquisas eleitorais se tornou um esporte nacional desde o início da polarização política. Há muitos eleitores que suspeitam da lisura dos institutos de opinião pública e acham que existe manipulação de resultados para influir junto aos indecisos. No entanto, dificilmente os institutos fraudariam resultados, especialmente diante da inexorabilidade dos resultados das urnas.

Ocorre que, em determinadas situações, algumas enquetes parecem não fazer sentido. É o caso de uma pesquisa divulgada ontem pelo Datafolha. Esse estudo mostra que a opinião de parentes, amigos, profissionais de imprensa, influenciadores ou líderes religiosos não terão nenhuma influência na escolha de um candidato à presidência para a maioria do eleitorado brasileiro.

Essa conclusão contraria o senso comum, uma vez que nos tempos atuais as pessoas tendem a se agrupar em bolhas que pensam de forma semelhante. De qualquer maneira, os institutos têm de trabalhar com uma única matéria-prima: a resposta dos entrevistados. E talvez aqui esteja o problema, em função de algo chamado “viés de desejabilidade social”.

Este conceito de nasceu na psicologia social americana nos anos 1950, quando pesquisadores perceberam um problema recorrente em questionários: as pessoas respondiam não o que pensavam de fato, mas o que julgavam ser a resposta mais aceitável aos olhos de quem perguntava. O psicólogo Allen L. Edwards batizou formalmente o fenômeno em 1953, ao demonstrar que entrevistados se descreviam de forma mais virtuosa, mais racional e mais independente do que realmente eram, mesmo em pesquisas anônimas. Não se trata de mentira deliberada. O que ocorre é um ajuste inconsciente entre o que a pessoa é e o que ela gostaria de ser.

Esse viés se manifesta com força redobrada em temas carregados de julgamento moral, social ou político. É por isso que pesquisas sobre hábitos alimentares, por exemplo, subestimam sistematicamente o consumo de comida ultraprocessada, que levantamentos sobre consumo de álcool subestimam a quantidade real ingerida, e que perguntas sobre preconceito racial ou de gênero quase sempre produzem respostas artificialmente mais tolerantes do que o comportamento real das pessoas revela em outras métricas. O denominador comum é sempre o mesmo: quando existe uma resposta socialmente valorizada e outra estigmatizada, o entrevistado acaba migrando para a primeira, mesmo sem perceber que está fazendo isso.

A pesquisa Datafolha sobre influência no voto encaixa-se perfeitamente nesse padrão. Em uma cultura política que cultua a imagem do eleitor “que pensa com a própria cabeça” e despreza publicamente a ideia de ser “manipulado” pela mídia, pela família ou pelas redes sociais, é natural que a esmagadora maioria dos entrevistados negue qualquer influência externa. Admitir essa interferência soaria como uma confissão de fraqueza intelectual ou de dependência de terceiros. Isso seria exatamente o oposto da autoimagem que qualquer eleitor quer projetar.

Isso não invalida a pesquisa. Mas em vez de revelar quem influencia o voto do brasileiro, o levantamento talvez revele algo igualmente valioso: qual fonte de influência é hoje mais estigmatizada socialmente e qual é mais fácil de admitir sem constrangimento. Cônjuges e filhos, por exemplo, aparecem com índices de influência relativamente mais altos justamente porque reconhecer a opinião de quem se ama não carrega o mesmo peso simbólico de admitir ser pautado pela imprensa ou pelo algoritmo das redes sociais.

Para quem acompanha eleições, a lição prática é clara: pesquisas sobre autopercepção de influência devem ser lidas com um desconto embutido, sobretudo em temas onde existe uma resposta moralmente “correta” disponível. O eleitor brasileiro pode até acreditar, sinceramente, que decide sozinho. Mas essa opinião está longe da realidade, especialmente em uma sociedade que busca diariamente informações e dados para reforçar as próprias posições ideológicas.

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