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Ozempic no marketplace expõe limites da saúde digital no Brasil

Lorena Scavone Giron
2 de julho de 2026
Operação do Mercado Livre com a Novo Nordisk no México é vista pela XP como avanço estratégico, mas regras brasileiras restringem a venda online de medicamentos com prescrição

A venda de medicamentos de alto valor em marketplaces começa a ganhar força na América Latina, mas ainda encontra uma barreira importante no Brasil: a regulação. O exemplo mais recente vem do México, onde o Mercado Livre passou a contar com uma loja oficial da Novo Nordisk para a venda de medicamentos à base de semaglutida, como Ozempic, Wegovy e Rybelsus, mediante apresentação de receita médica.

A iniciativa foi avaliada pela XP Investimentos como um avanço estratégico do Mercado Livre na vertical de saúde. Para os analistas liderados por Danniela Eiger, os medicamentos da classe GLP-1, usados no tratamento de diabetes e obesidade, têm perfil atraente para o e-commerce por reunirem alto valor, demanda recorrente e uso crônico.

“A iniciativa sinaliza progresso contínuo na construção da vertical de saúde do Mercado Livre. A principal questão continua sendo a replicabilidade no Brasil, onde o arcabouço regulatório atual restringe materialmente tal modelo”, afirma a XP.

No México, a operação será apoiada pela infraestrutura do Mercado Livre, incluindo Mercado Envios e centros de distribuição. A entrega final, porém, ficará sob responsabilidade de operadores de transporte farmacêutico licenciados. A loja oficial da Novo Nordisk também faz parte do Programa de Proteção de Marcas da plataforma, voltado a reduzir riscos de produtos falsificados ou desviados.

O modelo mexicano é possível porque a legislação local permite a venda online de medicamentos com prescrição, desde que o vendedor tenha licença sanitária e conte com um farmacêutico responsável pela validação das receitas antes da entrega. Segundo a XP, embora a regra não tenha sido desenhada especificamente para marketplaces, ela abre espaço para que fabricantes operem canais diretos ao consumidor com apoio de logística licenciada.

No Brasil, a situação é mais restritiva. A regulação limita a venda online de medicamentos à extensão digital de farmácias licenciadas e impede que marketplaces atuem diretamente como vendedores de remédios com prescrição. Além disso, medicamentos como a semaglutida estão sujeitos a regras adicionais.

“Dado que medicamentos GLP-1 são substâncias controladas, a semaglutida enfrenta uma camada regulatória adicional, enquanto fabricantes não podem se envolver em distribuição direta ao consumidor, já que a comercialização de medicamentos permanece exclusiva de farmácias licenciadas”, avaliam os analistas.

A XP lembra que a Lei 15.354/2026 permitiu que farmácias terceirizem serviços de logística e entrega, como ocorre em plataformas de delivery. A mudança, porém, não altera a regra central sobre quem pode vender medicamentos. Hoje, o Mercado Livre opera no Brasil por meio do MELI Farma, com uma farmácia licenciada em São Paulo e sortimento limitado, concentrado em produtos de higiene, cuidados pessoais e medicamentos sem prescrição.

Por isso, a XP vê impacto limitado no curto prazo para as redes de farmácias brasileiras. Na avaliação dos analistas, o México pode servir como uma prévia do que poderia acontecer em caso de flexibilização das regras no Brasil, mas um eventual debate regulatório tende a ser longo e deve enfrentar resistência dos principais players do setor farmacêutico.

Na prática, a operação mostra o potencial da saúde digital como nova frente de crescimento para o Mercado Livre, mas também evidencia que, no Brasil, o avanço desse mercado dependerá menos de tecnologia e mais de mudanças regulatórias.

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