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A Copa mais global esbarra nos EUA de Trump

Lorena Scavone Giron
13 de junho de 2026
Imagem da Semana reúne cenas de restrições migratórias, revistas, deportações e críticas à relação entre Fifa e governo americano no início do Mundial de 2026

A Imagem da Semana desta vez não cabe em uma única foto. A Copa do Mundo de 2026 começou oficialmente nesta quinta-feira (11), mas, antes mesmo de a bola rolar, uma sequência de imagens já havia tomado conta das redes sociais e colocado em xeque a promessa de uma festa global. A maior edição da história do torneio, realizada em Estados Unidos, México e Canadá, nasceu cercada por contradições: estádios cheios de expectativa, torcedores atravessando fronteiras, seleções chegando sob holofotes e, ao mesmo tempo, cenas de revistas, restrições migratórias, preços exorbitantes e tensão política.

O Mundial de 2026 foi vendido como a Copa da expansão. Pela primeira vez, 48 seleções participam do torneio, em vez das tradicionais 32. O número de partidas saltou de 64 para 104, ampliando o alcance comercial da competição e a presença de países que antes tinham menos espaço no principal palco do futebol. Mas a ampliação também trouxe uma pergunta incômoda: de que adianta abrir mais vagas no campo se parte dos torcedores, jornalistas, árbitros e integrantes de delegações encontra portas fechadas na imigração?

A fronteira no caminho do Mundial

A política migratória dos Estados Unidos virou um dos principais temas dos primeiros dias do torneio. Segundo a CNN Brasil, Irã, Haiti e Senegal estão entre as seleções diretamente afetadas por restrições impostas pelo governo de Donald Trump. No caso de Irã e Haiti, há banimento total para torcedores. O Senegal enfrenta restrição parcial, com prazos de análise de vistos que podem chegar a 12 ou 24 meses, tempo suficiente para transformar a viagem à Copa em uma impossibilidade prática.

A situação criou uma contradição difícil de ignorar: a Fifa promove o Mundial como um encontro entre povos, culturas e torcidas, mas parte desse público não consegue sequer chegar ao país-sede. Jogadores, comissões técnicas e pessoas diretamente ligadas às seleções receberam isenções específicas para participar da competição, mas torcedores, jornalistas e profissionais credenciados de determinados países ficaram à margem da festa. É a Copa global com catraca geopolítica.



Hotéis vazios e turismo abaixo do esperado

As restrições também começaram a produzir efeitos econômicos fora dos estádios. Segundo dados citados pelo g1, hotéis nas 11 cidades-sede americanas registram baixa ocupação e desempenho inferior ao de cidades do México e do Canadá, como Vancouver e Guadalajara. A queda é atribuída, em parte, à política restritiva de vistos e imigração do governo Trump, que afastou turistas de países afetados pelas barreiras de entrada. De acordo com pesquisa da Associação de Hotéis e Hospedagem dos EUA, cerca de 80% dos proprietários entrevistados disseram que as reservas ficaram abaixo das previsões iniciais, enquanto 70% apontaram restrições de visto e preocupações geopolíticas como fatores que reduziram a demanda internacional.

Infantino, Trump e a capa do L’Équipe

Uma das imagens mais simbólicas desse desconforto veio da França. Na capa desta quarta-feira (10), o jornal esportivo L’Équipe retratou o presidente da Fifa, Gianni Infantino, como um fantoche de Donald Trump. A manchete, em tom irônico, dizia: “Bem-vindos aos EUA”. A crítica mirava diretamente as restrições migratórias adotadas durante o Mundial e o tratamento dado a atletas, árbitros e integrantes de delegações ao tentarem entrar no país.


A capa ganhou repercussão porque sintetizou em uma imagem a sensação de submissão política da Fifa diante do governo americano. A entidade, que historicamente costuma impor condições duras aos países-sede, desta vez aparece sob pressão de uma administração que decidiu manter suas próprias regras de segurança, imigração e soberania mesmo diante das exigências de um torneio global.

Um “welcome” frio nos Estados Unidos

O contraste ficou evidente nas imagens de chegada das seleções. Enquanto no México as delegações foram recebidas com festa, música, bandeiras e clima de celebração popular, nos Estados Unidos o “welcome” foi bem mais frio. Em vídeos que circularam nas redes, equipes que desembarcaram em solo americano apareceram em procedimentos de segurança, revistas e checagens ainda na chegada. Em vez da recepção calorosa típica de uma Copa do Mundo, o primeiro contato de muitas delegações com o país-sede teve cara de controle de fronteira.


A diferença de tratamento ajudou a dar forma visual ao incômodo. De um lado, o México apareceu como o país da festa, das recepções abertas e do entusiasmo nas ruas. Do outro, os Estados Unidos surgiram como o país da triagem, dos agentes, das filas e da desconfiança.



O árbitro barrado

O caso do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan foi um dos mais citados nessa discussão. Escolhido pela Fifa para atuar na Copa, Artan seria o primeiro árbitro da história da Somália a participar de um Mundial. Ele havia sido eleito o melhor árbitro da África em 2025, mas acabou barrado ao tentar entrar nos Estados Unidos. Segundo relatos publicados na imprensa internacional, passou cerca de 11 horas interrogado por autoridades migratórias, chegou a ser mantido sob custódia e foi impedido de seguir no torneio. Ao retornar à Somália, foi recebido com festa pela população.


O episódio virou símbolo de uma Copa que se diz inclusiva, mas que começou excluindo personagens que deveriam representar sua ampliação. Artan não era torcedor sem ingresso, turista improvisado ou visitante sem vínculo com o evento. Era um profissional selecionado pela própria Fifa. Ainda assim, ficou fora.


Iraque, imprensa e constrangimentos na imigração

Outros casos reforçaram a percepção de tratamento desigual. O atacante Aymen Hussein, principal nome da seleção do Iraque, ficou retido por cerca de sete horas na imigração antes de receber autorização para entrar nos Estados Unidos. Já um fotógrafo que acompanhava a delegação iraquiana teve o visto negado ao desembarcar e foi deportado de volta para Bagdá. Segundo relatos, a segurança afirmou ter confundido Hussein com outra pessoa. A mensagem, para muitos críticos, foi clara: estar credenciado para a Copa não significa, necessariamente, estar autorizado a participar dela em condições normais.


O clima também ganhou força após o relato da repórter Karine Alves, da TV Globo, que afirmou ter passado por uma abordagem racista ao desembarcar nos Estados Unidos para a cobertura do Mundial. A jornalista contou que foi orientada de forma ríspida a levantar o cabelo durante uma revista e observou que colegas não passaram pelo mesmo procedimento.

Nas redes sociais, o tom foi de indignação. Usuários lembraram que situações como essas, se ocorressem em outros países-sede, provavelmente provocariam reação internacional muito mais dura. Também circularam críticas ao fato de a Fifa manter discurso de diversidade e união enquanto profissionais, atletas e torcedores de países do Sul Global enfrentam barreiras práticas para participar do evento.

O Irã entre o campo e a crise diplomática

O caso do Irã tornou a situação ainda mais sensível. Em meio às tensões entre Teerã e Washington, a seleção iraniana precisou alterar sua base de preparação do Arizona para Tijuana, no México, após demora na emissão de vistos e restrições de permanência em solo americano. A Federação Iraniana de Futebol afirmou que parte de sua comissão teve a entrada negada nos Estados Unidos, o que, segundo a entidade, comprometeria a igualdade de condições na competição.

Inicialmente, os jogadores iranianos só poderiam entrar nos Estados Unidos nos dias em que disputassem partidas e precisariam deixar o país logo depois dos jogos. A medida teria sido flexibilizada posteriormente, permitindo a chegada da equipe um dia antes dos compromissos. Ainda assim, o episódio expôs uma situação inédita: uma seleção classificada para a Copa, mas obrigada a organizar sua logística como se estivesse atravessando uma crise diplomática permanente.

Para completar, há a possibilidade de Irã e Estados Unidos se cruzarem na fase eliminatória, caso avancem em determinadas posições de seus grupos. Um roteiro que parece escrito menos por tabela esportiva e mais por sala de crise.

A camisa do Haiti e a neutralidade seletiva

O Haiti também entrou no centro das polêmicas, mas por outro caminho. A seleção teve de alterar seus uniformes depois que a Fifa considerou haver “mensagens políticas” na camisa. O desenho original trazia uma bandeira e uma ilustração da Batalha de Vertières, confronto de 1803 decisivo para a independência do país após conflito com a França. A fornecedora Saeta afirmou que a intenção era celebrar o orgulho, a resiliência e o espírito do povo haitiano, sem declaração política. Ainda assim, a entidade pediu mudanças.


A discussão sobre neutralidade, nesse caso, voltou pela porta dos fundos. Enquanto a Fifa barra ou ajusta símbolos históricos em uniformes, seu presidente aparece cada vez mais associado ao chefe de Estado do principal país-sede. É uma assimetria difícil de explicar sem malabarismo institucional. O Haiti não pôde vestir sua própria memória sem revisão. Trump, por outro lado, recebeu prêmio, palco e afagos.

Influenciadores na mira

Além dos casos envolvendo seleções e árbitros, a alfândega americana também passou a tratar criadores de conteúdo e integrantes de mídia alternativa com maior rigor. A justificativa é que produzir conteúdo monetizável em solo americano com visto de turista pode ser considerado trabalho ilegal. A medida atingiu influenciadores e produtores independentes que viajavam para cobrir a Copa, ampliando a discussão sobre quem tem autorização para narrar o Mundial, e em quais condições.



A Copa dos preços surreais

Além da política, a Copa de 2026 também virou alvo de críticas pelo preço. A venda de ingressos adotou o chamado “preço dinâmico”, modelo em que os valores variam conforme a demanda. Na prática, torcedores passaram a pagar preços diferentes por lugares semelhantes dentro da mesma fase de vendas. Poucas semanas antes do torneio, o ingresso mais barato para a final aparecia no site da Fifa por US$ 8.625. Um assento acessível para cadeirantes custava pelo menos US$ 10.350. E um lugar na primeira fila de um bloco de canto chegou a ser anunciado por US$ 690 mil.


A lógica se espalhou para além das arquibancadas. Transporte, estacionamento e deslocamentos também entraram na conta. Em alguns locais, torcedores se depararam com valores muito acima do normal para chegar aos estádios. Estacionamentos passaram a custar dezenas ou centenas de dólares, enquanto alternativas públicas foram criticadas pelos preços elevados. Somados às restrições de visto, aos relatos de abordagens rigorosas em aeroportos e à baixa ocupação hoteleira nas cidades americanas, os preços ajudaram a esfriar o entusiasmo de parte dos turistas internacionais.

O custo climático do Mundial

Há ainda a questão ambiental. A Fifa afirma defender sustentabilidade, mas a estrutura da Copa de 2026 foi criticada pelo impacto climático. As longas distâncias entre cidades-sede, o número maior de jogos e a dependência de voos devem ampliar significativamente a pegada de carbono do torneio. Estudos citados pela Deutsche Welle estimam que a competição poderá gerar mais de nove milhões de toneladas de CO₂, principalmente por causa dos deslocamentos.

Um mosaico incômodo

A Copa de 2026 ainda está no começo e terá, inevitavelmente, grandes jogos, craques, histórias emocionantes e imagens bonitas. Mas a primeira galeria visual do torneio não foi feita apenas de festa. Foi feita de filas, barreiras, agentes, revistas, capas críticas, preços altos, hotéis abaixo da expectativa e delegações tentando atravessar uma fronteira política antes de atravessar o gramado.

O tom ganhou ainda mais força com um vídeo do vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, que circulou nas redes sociais. Na gravação, ele lembra os visitantes estrangeiros de que, quando a Copa do Mundo terminar, terão de voltar para seus países de origem. A fala, apresentada como recado aos turistas que viajaram para acompanhar o Mundial, reforçou a percepção de uma recepção pouco acolhedora no país-sede. Em uma Copa vendida como celebração global, o aviso soou menos como boas-vindas e mais como lembrete de fronteira.


A Copa que prometia ser a mais inclusiva da história começou mostrando que, no futebol globalizado, o mundo todo é convidado, mas nem todo mundo entra pela mesma porta.

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