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Quando a joia deixa o corpo e vira casa

Lorena Scavone Giron
12 de junho de 2026
Silvia Furmanovich estreia na ArPa com peças que aproximam alta joalheria, arte, design colecionável e artesanato de luxo

A joia, no universo de Silvia Furmanovich, nunca foi apenas adorno. Em suas criações, pedras preciosas, madeiras raras, metais, fibras naturais e técnicas artesanais funcionam como linguagem. Agora, esse repertório muda de escala: sai do corpo e passa a ocupar a casa.

Reconhecida internacionalmente por uma alta joalheria marcada pela pesquisa de materiais, pelo diálogo com diferentes culturas e pela valorização do fazer manual, Silvia Furmanovich estreia na ArPa 2026 com a linha SF Home e com peças da coleção Fauna. A presença na feira, uma das principais do circuito de arte no Brasil e na América Latina, não é apenas uma vitrine para novos produtos. É também um movimento de posicionamento: aproxima a marca do campo do design colecionável e reforça a fronteira cada vez mais porosa entre joalheria, arte, decoração e luxo autoral.

Divulgação: SILVIA FURMANOVICH 

A SF Home traduz para mobiliário e objetos de decoração o mesmo vocabulário que consagrou a designer na joalheria. Mesas, banquetas, bandejas, centros de mesa, vasos e peças decorativas aparecem como uma espécie de extensão doméstica da alta joalheria. São objetos funcionais, mas construídos para ultrapassar a função. O interesse está menos no uso cotidiano e mais na presença: no acabamento, na matéria-prima, na escala do gesto artesanal e na capacidade de transformar um item de casa em objeto de contemplação.

Divulgação: SILVIA FURMANOVICH 
Divulgação: SILVIA FURMANOVICH 

Esse deslocamento ajuda a explicar parte do movimento atual do luxo. Em um mercado saturado por logotipos, colaborações rápidas e discursos de exclusividade repetidos à exaustão, marcas de alto padrão têm buscado afirmar valor por meio de técnica, autoria e permanência. No caso de Silvia Furmanovich, a expansão para a casa não parece nascer de uma tentativa oportunista de ocupar mais uma categoria, mas da ampliação de um repertório já consolidado: o ornamento como linguagem, o artesanato como capital simbólico e a matéria-prima como narrativa.

Inspiradas pela natureza e pela exuberância tropical, as criações exploram volumes orgânicos, superfícies sinuosas e padrões construídos a partir da marchetaria. A técnica, de origem milenar, exige o encaixe preciso de lâminas de madeira raras e fibras naturais para formar desenhos complexos. Nas mãos de Silvia, esse saber artesanal ganha tratamento próximo ao da alta joalheria, com atenção ao detalhe, ao tempo de execução e à precisão do acabamento.

Divulgação: SILVIA FURMANOVICH 
Divulgação: SILVIA FURMANOVICH 
Divulgação: SILVIA FURMANOVICH 


Natureza, técnica e repertório autoral

Na ArPa, a designer também apresenta joias da coleção Fauna, inspiradas em referências botânicas e nos grafismos do reino animal. Zebras, leopardos, tigres, insetos e borboletas aparecem reinterpretados a partir dos veios naturais e das variações tonais das madeiras. O resultado são peças que transformam padrões da natureza em composições ornamentais de forte impacto visual, sem depender apenas do brilho tradicional das pedras preciosas para comunicar valor.


Essa relação entre matéria-prima, território e técnica está no centro da trajetória de Silvia Furmanovich. Nascida em São Paulo e descendente de uma linhagem de ourives italianos, a designer fundou sua marca homônima em 1998, após uma investigação pessoal que unia joalheria, arte e artesanato. Seu ateliê permanece na capital paulista, onde hoje trabalha ao lado dos três filhos.

Ao longo da carreira, Silvia desenvolveu colaborações com artesãos de diferentes culturas. No Acre, trabalhou com mestres locais para adaptar a marchetaria à precisão da joalheria. No Japão, pesquisou o trançado de bambu. No Uzbequistão, aproximou-se de técnicas têxteis. No Rajastão, dialogou com pintores de miniaturas. Essa circulação aparece em peças que não se definem apenas pela raridade dos materiais, mas pelo repertório cultural e manual que carregam.

SIilvia Furmanovich / Divulgação


O luxo como permanência

Há, nesse percurso, uma leitura interessante sobre o luxo contemporâneo: o valor já não está apenas na matéria nobre, mas na cadeia de conhecimento que sustenta o objeto. Madeira, fibra, metal e pedra importam menos isoladamente do que quando articulados por técnica, autoria e tempo. É esse conjunto que permite a uma peça ocupar o território do colecionável, e não apenas o da decoração sofisticada.

A própria designer define a SF Home como um desdobramento direto de sua atuação na alta joalheria. “A SF Home é uma extensão natural do meu trabalho na alta joalheria, criada para levar aos espaços a mesma emoção e riqueza de detalhes que sempre busquei imprimir às peças criadas para adornar o corpo. A coleção reúne preciosidades únicas para a casa, incluindo objetos esculpidos e criações em marchetaria, refletindo meu fascínio por técnicas transmitidas e aperfeiçoadas ao longo dos séculos. São saberes preservados pelas mãos de artesãos, aliados à sensibilidade artística e ao profundo respeito pelos materiais, capazes de transformar cada criação em uma expressão de arte, beleza e poesia”, afirma Silvia Furmanovich.

Mais do que lançar uma linha para casa, Silvia Furmanovich parece propor uma mudança de escala para a própria ideia de joia. Na SF Home, o precioso não está apenas no brilho das pedras, mas na madeira rara, no encaixe exato, no gesto manual e na capacidade de transformar uma peça funcional em objeto de contemplação. A joia deixa o corpo, mas mantém sua lógica: carregar matéria, tempo e desejo em uma forma cuidadosamente construída.

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