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Moody’s alerta para dependência crescente da China e vê riscos para indústria brasileira

Rodrigo Dias
10 de junho de 2026
Relatório aponta avanço da concentração de exportações em commodities, aumento da concorrência chinesa e vulnerabilidade de setores como automóveis, aço, máquinas e eletrônicos no Brasil

A crescente dependência da América Latina em relação à China como destino de exportações e fornecedora de produtos industrializados representa um risco estrutural para a região, segundo relatório divulgado pela Moody’s Ratings. A agência avalia que os desequilíbrios da produção industrial chinesa e a expansão das exportações do país asiático estão pressionando a competitividade da indústria latino-americana, especialmente em setores como aço, automóveis, eletrônicos e produtos químicos. Para a Moody’s, Brasil e Argentina figuram entre as economias mais expostas, com cerca de 50% a 60% de seus setores apresentando elevados níveis de vulnerabilidade.

O estudo destaca que o comércio entre China e América Latina ultrapassou US$ 500 bilhões em 2025, mais que o dobro dos cerca de US$ 200 bilhões registrados em 2010. Nesse período, as exportações latino-americanas para a China tornaram-se cada vez mais concentradas em commodities, que atualmente representam quase 80% de tudo o que a região vende ao mercado chinês. Minério de ferro, cobre, soja, petróleo bruto e prata lideram a pauta exportadora. Segundo a Moody’s, esse perfil comercial reduz a captura de valor agregado pelas economias latino-americanas e aumenta a exposição a oscilações de demanda, preços internacionais e mudanças na política econômica chinesa.

Para o Brasil, a agência identifica riscos relevantes na indústria de transformação. Os setores automotivo, de máquinas, equipamentos elétricos e eletrônicos, químicos, borracha e plástico apresentam elevada vulnerabilidade diante do avanço das importações chinesas. O relatório aponta que a participação de insumos chineses incorporados às exportações brasileiras aumentou significativamente entre 2010 e 2022, enquanto as importações de veículos elétricos chineses cresceram de forma acelerada. A siderurgia é citada como exemplo da assimetria comercial: o país exporta grandes volumes de minério de ferro para a China, mas enfrenta crescente concorrência de produtos siderúrgicos chineses no mercado doméstico.

A Moody’s avalia que o principal desafio não está apenas em uma eventual desaceleração econômica chinesa, mas em uma mudança estrutural do modelo de crescimento do país. Com a transição da China para setores de alta tecnologia, consumo interno e manufatura avançada, a demanda por commodities tradicionais tende a perder força ao longo do tempo. Além disso, a expansão da capacidade industrial chinesa tem reduzido a necessidade de importar produtos processados, favorecendo a compra de matérias-primas e concentrando as etapas de maior valor agregado dentro do próprio país.

Apesar dos riscos, a agência reconhece que a China segue desempenhando papel relevante como investidora na região. Entre 2015 e 2025, os investimentos chineses na América Latina somaram aproximadamente US$ 116 bilhões, dos quais cerca de US$ 48 bilhões foram destinados ao Brasil. Os recursos têm sido direcionados principalmente para energia, mineração, infraestrutura, veículos elétricos e projetos ligados à transição energética.

Ainda assim, a Moody’s conclui que a crescente dependência simultânea da demanda chinesa por commodities e do fornecimento de produtos manufaturados aumenta a vulnerabilidade econômica da América Latina e reforça os riscos de desindustrialização no longo prazo.

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