Uma pesquisa divulgada pelo Instituto Informa apresenta um dado curioso: apenas 15% dos brasileiros escolhem em quem votar usando critérios de ideologia. Cerca de 55%, por outro lado, disseram que escolhem seus candidatos por conta de boas propostas, independentemente dos preceitos ideológicos. Este dado abre uma discussão instigante. Afinal, em um cenário polarizado, imagina-se que existem dois polos ideologicamente fortes que duelam entre si. Talvez não seja esse o caso. O fato de haver uma rejeição forte a determinadas ideias político-econômicas não forma necessariamente o perfil ideológico de um indivíduo. É aquela velha história: a pessoa sabe o que não quer, mas isso não significa que ela tenha noção daquilo que deseja.
Mas Bolsonarismo e Lulismo não seriam ideologias?
Ideologia é um sistema estruturado de ideias, valores e princípios que orienta uma visão de mundo e uma proposta de organização da sociedade. O liberalismo, o socialismo, o conservadorismo e o libertarianismo, por exemplo, são ideologias: têm coerência interna, tradição intelectual, princípios que se aplicam independentemente de quem está no poder e que existiam antes de qualquer líder específico.
Já Bolsonarismo e Lulismo dependem de comandantes políticos: Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.
Comecemos pelo lado conservador: o Bolsonarismo é um fenômeno organizado em torno de uma figura, não exatamente um conjunto de princípios. Seus adeptos não seguem uma doutrina e sim um líder. Isso fica evidente quando posições que Bolsonaro defendeu no passado foram abandonadas sem cerimônia depois. Em consequência, seus seguidores fizeram o mesmo sem questionamento. Aqui temos uma diferença crucial: uma ideologia verdadeira constrange o líder; no Bolsonarismo, porém, é o líder que define o que o movimento pensa.
Já o Lulismo tem uma característica que o distingue do bolsonarismo: não é de esquerda no sentido clássico. É uma adesão de uma massa de brasileiros pobres a uma figura que eles enxergam como protetora, alguém que veio de baixo e não os esqueceu quando chegou ao poder. Neste sentido, tem uma certa semelhança com a figura de Getúlio Vargas, que era idolatrado pelas massas apesar de ser um ditador que suprimiu liberdades individuais durante quinze anos (e depois foi eleito pelo voto direto).
Lula, apesar das tintas esquerdistas de seu governo, não quer ruptura nem transformação estrutural da sociedade. Seu foco está nos direitos trabalhistas, projetos sociais e estímulos ao consumo. É um vínculo emocional e pragmático ao mesmo tempo, não propriamente ideológico.
Há cinco efeitos que atuam nesta sociedade que dilui a ideologia. O primeiro é a instabilidade de longo prazo. Sem ideologia, não há projeto. E sem projeto, cada governo começa do zero, desfaz o que o anterior fez e improvisa respostas para problemas que exigiriam soluções estruturais. O segundo efeito é que o vácuo ideológico acaba sendo preenchido pelo fisiologismo. Quando os partidos não têm princípios que os contenham, se concentram no mercado de cargos e verbas. O Centrão brasileiro é o produto mais acabado disso.
O terceiro efeito é a vulnerabilidade ao populismo. Uma população sem referências ideológicas sólidas é mais fácil de manipular. O quarto é a incapacidade de fazer reformas impopulares. Governos ideologicamente comprometidos com um projeto conseguem, em alguns momentos, convencer sua base a aceitar sacrifícios temporários em nome de um objetivo maior. Sem ideologia, não há narrativa que justifique o custo político de uma reforma difícil e tudo que dói eleitoralmente é adiado até o dia de São Nunca.
O quinto efeito, talvez o mais silencioso, é o empobrecimento do debate público. Sem ideologias em disputa, não há debate de ideias: há disputa de narrativas emocionais, guerra de identidades e confronto de tribos. O que deveria ser uma conversa sobre como organizar a sociedade vira uma briga sobre quem é o mocinho e quem é o vilão.
O Brasil paga um preço alto por tudo isso: fica a eterna sensação de que o país está sempre na iminência de decolar mas nunca voa de fato. Enquanto 85% dos eleitores escolherem seus representantes por emoção, carisma ou fidelidade tribal, o Brasil continuará sendo governado apenas para satisfazer o presente, não para semear o futuro das novas gerações.