Sou fã dos Beatles e leio tudo o que cai em minhas mãos sobre a banda (em especial, sobre John Lennon e Paul McCartney). Na semana que passou, devorei o livro “John & Paul: uma história de amor em canções”. No texto de Ian Leslie, há muito material inédito e alguns erros – alguns propositais e explicados pelo autor em notas de rodapé. O que mais chama a atenção nesta obra é o grau de interpretação das personalidades dos biografados, bem acima de qualquer livro sobre a dupla de compositores que mudou o rock nos anos 1960.
Dois trechos se sobressaem em meio à narrativa de Leslie, pois podem ser aplicados à vida de qualquer pessoa. Mas caem como uma luva no mundo empresarial, em especial quando falamos de perfis de empreendedores e executivos que fizeram a diferença na história corporativa.
O primeiro trecho é o seguinte: “Paul tinha composto vários sucessos, mas muito de sua influência se manifesta nas músicas de John, que também dava contribuições decisivas para as composições de Paul, só que com menos frequência. Não porque John não desse o devido valor às músicas de Paul e sim porque costumava levar composições em estado embrionário para ele e os demais, que então desenvolviam colaborativamente. Suas ideias serviam de plataforma para a criatividade do grupo. As ideias de McCartney geralmente chegavam mais prontas, o que diminuía o escopo da colaboração de Lennon e dos outros”.
Muitos líderes empresariais se dividem nessas categorias: há aqueles que jogam um diamante bruto em cima da mesa de reuniões e dão à equipe a tarefa de lapidá-lo. Quando isso acontece, o grupo percebe rapidamente o propósito de seu trabalho, pois está inserido na autoria coletiva da criação de um novo produto ou serviço.
Mas há aqueles que combinam inspiração e transpiração: eles surgem com uma ideia estruturada e um caminho a seguir, deixando ao seu time pouco espaço para criar. Neste caso, por mais brilhante que seja o insight, a colaboração alheia pode ser menor que a desejada, o mesmo ocorrendo com o entusiasmo da equipe.
Quem está mais certo? Qual é o mais brilhante? Bem, não há exatamente uma reposta certa para essas perguntas. Tanto John como Paul foram espetacurares em suas carreiras, apesar de métodos de trabalho diferentes. Nas empresas, ocorre a mesma coisa: as empresas comemoram o sucesso e não se preocupam muito como nasceu uma fórmula vencedora.
Outro trecho que merece ser destacado neste livro é o seguinte: “Tanto John como Paul estavam fazendo jus à definição de genialidade de Schopenhauer: diferente do talentoso, que atinge um alvo que ninguém mais é capaz de acertar, o genial atinge um alvo que ninguém vê”.
Steve Jobs é um exemplo dessa genialidade. Ele criou a revolução digital através de um produto novo, o iPhone, e abriu inúmeras possibilidades de negócios quando colocou várias funcionalidades em um só aparelho, que usava a internet para fazer funcionar suas aplicações.
Enxergar um mercado inédito é como compor uma sinfonia inteira em sua cabeça, enxergando algo que não existe ainda. Essa genialidade pode produzir ideias lapidadas ou brutas – não importa. O que é importante, no mundo dos negócios, é estimular os gênios que vão nos levar para os novos estágios de evolução.
O próprio Jobs foi expulso da própria empresa que fundou e teve de voltar para acabar com o festival de mediocridades que tinha tomado conta da Apple. A genialidade, muitas vezes, incomoda, pois vem acompanhada de um temperamento geralmente irascível. Mas talvez esse seja o preço a pagar para ter acesso a uma realidade que ainda não se materializou – e que só existe, naquele momento, nas mentes brilhantes que irão mudar a vida de todos.
No fundo, John, Paul e Jobs nos ensinam a mesma coisa: genialidade não tem um único formato. Tentar domesticá-la para que se encaixe em organogramas e processos pode ser o caminho mais curto para perdê-la. O desafio das empresas não é escolher entre o gênio que joga o diamante bruto na mesa e o que chega com a joia lapidada. É criar um ambiente onde os dois se sintam à vontade para trabalhar. Quem consegue isso não apenas retém talentos extraordinários, mas também constrói algo raro no mundo corporativo: uma cultura que reconhece o futuro antes que ele apareça nos relatórios.