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Cartier blinda Richemont contra a ressaca do luxo

Lorena Scavone Giron
22 de maio de 2026
Grupo suíço supera estimativas com alta de 13% nas vendas trimestrais, puxado por joias, mas investidores ainda cobram cautela diante de custos, câmbio e tensões geopolíticas

A Richemont, dona da Cartier e da Van Cleef & Arpels, encerrou a temporada de balanços das grandes empresas europeias de luxo com um recado incômodo para o pessimismo do setor: ainda há demanda forte quando o produto certo encontra o consumidor de altíssima renda. O grupo suíço registrou vendas de 5,4 bilhões de euros no quarto trimestre fiscal, encerrado em março, alta de 13% em taxas de câmbio constantes e acima da projeção de 5,31 bilhões de euros esperada por analistas.

O resultado mostra uma aceleração em relação ao trimestre anterior, quando as vendas haviam avançado 11%, e reforça a diferença entre segmentos dentro do próprio mercado de luxo. Enquanto parte da indústria sofre com consumidores mais seletivos, estoques elevados e perda de fôlego em algumas regiões, a Richemont se beneficia da força da joalheria de alto padrão, categoria menos vulnerável à desaceleração do consumo aspiracional.

No ano fiscal, o lucro líquido subiu de 2,75 bilhões para 3,48 bilhões de euros, enquanto a receita total avançou de 21,40 bilhões para 22,42 bilhões de euros. A divisão de joias foi o principal motor do desempenho, com crescimento trimestral de 16%, sustentado pela demanda por marcas de forte reconhecimento global. O negócio de relógios também voltou a registrar lucratividade no segundo semestre, sinalizando uma possível recuperação cíclica em uma categoria que vinha pressionada.

A leitura positiva, porém, não elimina os riscos. O Oriente Médio e a África tiveram queda de 3% nas vendas no quarto trimestre, em bases cambiais ajustadas, revertendo o crescimento de dois dígitos observado nos trimestres anteriores. Segundo o CEO da Richemont, Nicolas Bos, a guerra reduziu o fluxo de turistas do Oriente Médio na Europa, levando o grupo a reforçar o foco nos consumidores locais.

O presidente do conselho, Johann Rupert, resumiu o novo ambiente ao afirmar que “teremos que começar a pensar que a turbulência no mundo é o novo normal”. A frase ajuda a explicar por que, mesmo com números fortes, o mercado não comprou a tese de euforia sem ressalvas.

As ações da Richemont chegaram a subir mais de 5% na abertura da Bolsa de Zurique, mas perderam força ao longo do pregão e passaram a recuar 1,60%. A reação mostra que investidores reconhecem a qualidade do resultado, mas ainda ponderam pressões relevantes, como o aumento dos custos de metais preciosos, efeitos cambiais e possíveis impactos tarifários.

Para analistas, a Richemont segue como uma das empresas mais bem posicionadas do luxo global, justamente por sua exposição ao público de maior renda e ao segmento de joias, que tem mostrado resiliência no pós-pandemia. Ainda assim, a margem mais apertada nessa área e o ambiente geopolítico instável impedem uma leitura totalmente confortável. No luxo, a Cartier continua brilhando. Mas o mercado, como sempre, quer saber quanto custa manter esse brilho.

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