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O caso do Banco Master pode mudar o Brasil que conhecemos

Aluizio Falcão Filho
17 de fevereiro de 2026

Você provavelmente está pensando o que o título deste artigo tem a ver com a sua ilustração – uma imagem com os atores William Shatner e Joan Collins. Vamos lá. Sou um fã inveterado da série “Jornada das Estrelas” e esse fotograma é de meu episódio favorito, chamado “The City in the Edge of Forever”. Neste capítulo da saga da nave estelar Enterprise, o médico Leonard McCoy acidentalmente é contaminado por uma droga poderosa e enlouquece a bordo. Ele, então, se teletransporta para o planeta em que a espaçonave orbita e é seguido pelo capitão James T. Kirk (Shatner) e o sr. Spock (Leonard Nimoy).

No planeta, encontram uma espécie de portal do tempo, no qual McCoy entra e desaparece. O guardião do portal, logo a seguir, surge e explica que o médico mudou o curso da história e que o presente no qual Kirk e Spock viviam deixou de existir. Os dois, então, resolvem ir atrás do colega para tentar reverter o estrago. Eles chegam na Nova York dos anos 1930 para onde McCoy viajou, mas chegam alguns dias antes.

Neste passado do planeta Terra, ele conhece Edith Keeler (Collins), que dirige um refeitório destinado aos desempregados que foram atingidos pela Grande Depressão. Spock, em seguida, tem o seu momento “MacGyver”: com algumas válvulas e aparelhos de rádio acoplados a um equipamento equivalente ao nosso tablet (chamado Tricorder), ele monta uma gambiarra na qual consegue ver o futuro.

Descobre, assim, que Edith Keeler é um personagem importante para a história da Terra e que ela pode mudar o destino. Originalmente, ela morreria em alguns dias em um acidente de trânsito. Mas a vinda de McCoy mudou isso. Ela, então, lideraria um movimento pacifista que impediria os Estados Unidos de ingressarem na Segunda Guerra Mundial – e este acontecimento transformaria a cronologia do planeta.

É aqui que a série de TV e nosso presente se encontram. Há situações e pessoas que podem mudar completamente a história, pendendo o destino para um lado ou para o outro. Trata-se exatamente da investigação que envolve as causas da liquidação extrajudicial do Banco Master.

Um personagem crucial nesta trama é o novo relator do processo, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Pelas evidências que já vazaram e pelo que se comenta à boca pequena, o trabalho da Polícia Federal pode revelar deslizes morais e atos de corrupção que fariam a Operação Lava Jato ser vista como um episódio criminal pueril.

Mesmo que o controlador do Master, Daniel Vorcaro, não faça uma delação premiada, a PF já tem condições de encontrar provas de envolvimento de autoridades em atividades ilícitas de vários matizes, o que pode chacoalhar o Brasil de diversas maneiras. Um de seus caminhos será na base do “follow the money”. Deste jeito, é possível chegar a muita gente graúda.

Caso todas as suspeitas forem confirmadas, haverá uma depuração enorme no cenário político nacional e os padrões de julgamento dos brasileiros – que sempre encararam a corrupção como algo condenável, mas normalizado – podem mudar significativamente.

Mesmo que as revelações sejam bombásticas, no entanto, isso não é uma garantia de que a preocupação com a corrupção possa ser elevada de agora em diante. O cenário que se viu após a Lava Jato sugeria que o Brasil iria entrar em uma fase na qual todos os corruptos seriam encarcerados e que o desvio de verbas públicas seria combatido de forma veemente. Infelizmente, vimos que isso se perdeu no meio do caminho e o recente escândalo do INSS mostra que os bandidos continuam agindo nas sombras como fizeram no passado.

A investigação sobre o Banco Master pode ser exatamente um ponto de inflexão, pois expõe a chance rara de romper o ciclo de normalização da corrupção que atravessa governos, partidos e gerações. É a oportunidade de mostrar que o país não precisa aceitar o eterno retorno da impunidade, nem se resignar ao cinismo confortável do “sempre foi assim”.

Se as instituições tiverem coragem, se a sociedade não desviar o olhar e se a verdade vier à tona com a força que se anuncia, talvez este seja o nosso “portal do tempo”: o instante em que escolhemos qual Brasil queremos que exista daqui para frente. Podemos repetir a história ou podemos finalmente passá-la a limpo. A escolha, como sempre foi, será nossa.

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