Guardiões do propósito e forasteiros somam 41%. Segundo estudo Pluxee/Ipsos, só 12% veem trabalho como centro da vida
A relação dos brasileiros com o trabalho está mudando — e rapidamente. Um novo estudo da Pluxee, em parceria com o Instituto Ipsos, revela que 57% dos trabalhadores do país colocam a vida pessoal acima da profissional. O levantamento, realizado com 8,7 mil pessoas em 10 países, incluindo mais de mil brasileiros, aponta que o engajamento no trabalho deixou de ser medido por entrega contínua e passou a seguir ciclos, prioridades e fases da vida.
A pesquisa também reuniu 80 depoimentos qualitativos e análises de especialistas para entender o que motiva (ou desmotiva) as pessoas a permanecerem conectadas às suas empresas — e o que elas esperam em troca.
‘Não é performar 100% o tempo todo’
Para Fabiana Galetol, diretora executiva de Pessoas e Responsabilidade Social Corporativa da Pluxee no Brasil, o conceito de engajamento continua vivo — mas não se parece em nada com o modelo tradicional.
“Quando falamos de engajamento, estamos falando de pessoas, que vivem ciclos, desafios e conquistas dentro e fora do trabalho. Cresce a busca por uma relação integrada, em que o profissional não anula o pessoal e pode se desenvolver respeitando seu próprio ritmo.”
A executiva reforça que o equilíbrio não é uma fórmula, mas um movimento contínuo. “Não significa performar 100% o tempo todo, mas atuar de forma sustentável, com propósito e autonomia para conciliar prioridades”, afirma.
Os brasileiros
A pesquisa categoriza os trabalhadores em oito grupos que representam diferentes formas de enxergar o trabalho e a vida.
- Guardiões do propósito (23%) – Vida pessoal e causas sociais guiando as escolhas.
- Forasteiros (18%) – Baixo engajamento; trabalham pelo sustento.
- Normativistas (17%) – Equilíbrio entre vida e trabalho, com participação social.
- Funcionais (11%) – Vida pessoal em foco, trabalho visto de forma positiva.
- Workaholics (10%) – Trabalho no centro, pouca vida pessoal.
- Envolvidos (9%) – Equilíbrio entre carreira, vida pessoal e comunidade.
- Totalmente Engajados (7%) – Trabalho em primeiro plano, mas com equilíbrio.
- Coletivistas (5%) – Forte foco em vida pessoal e impacto social.
Esse retrato reforça que não existe um único modelo de sucesso ou engajamento.
“Ser workaholic já foi sinônimo de sucesso. Hoje é associado à exaustão e à queda de produtividade”, afirma Galetol. “O trabalho mudou, e nossa forma de viver também.”
Otimismo alto — mas sem lealdade incondicional
O trabalhador brasileiro, segundo a pesquisa, também segue confiante:
- 85% acreditam no próprio futuro
- 77% relatam humor positivo
Mesmo assim, isso não significa vínculo inabalável com a empresa. Embora 88% gostem do lugar onde trabalham, só 29% permaneceriam ali exclusivamente por interesse próprio.
O estudo também aponta uma mudança cultural:
- 57% priorizam a vida pessoal
- Apenas 12% veem o trabalho como centro da vida
Para Galetol, o dado evidencia um novo pacto entre empresas e colaboradores: reciprocidade. “As companhias precisam criar ambientes que favoreçam conexões humanas, pertencimento e apoio às diferentes fases de carreira”, diz.
Pagar contas e pertencer
A pesquisa mostra nuances importantes sobre o que move o brasileiro:
- 63% trabalham para pagar as contas
- 57% se sentem inspirados pelo ambiente e pelos colegas
- 53% gostam do que fazem
- 91% dos gestores estão satisfeitos em seus cargos
Antes de avanços em agendas ESG, os profissionais pedem o básico:
- 60% querem condições de trabalho justas
- 37% esperam ações ambientais concretas
Trabalho importante, mas não identidade. Globalmente, o panorama é semelhante:
- 83% gostam ou amam suas empresas
- 71% dizem que o trabalho é importante, mas não define quem são
- 46% dão o máximo de si
- 34% adotam postura mais equilibrada
A vida fora do escritório orienta decisões: Apenas 19% no mundo e 12% no Brasil colocam o trabalho no centro da vida.
O que sustenta o bem-estar
O bem-estar deixou de ser um conceito abstrato para se tornar uma construção prática, baseada em escolhas diárias, segundo o estudo. Entre os trabalhadores entrevistados no mundo, dois elementos se destacam como os maiores responsáveis por sustentar a qualidade de vida:
- Conexão com outras pessoas (56%)
- Tempo para si (42%)
Esses fatores ajudam a explicar uma tendência global: profissionais querem relacionamentos saudáveis — dentro e fora das empresas — e espaço para administrar suas próprias rotinas. As relações humanas aparecem como o “cimento” que sustenta o equilíbrio emocional, enquanto o tempo individual garante a autonomia necessária para recarregar a energia.
No Brasil, essa dimensão social é ainda mais forte. 62% dos profissionais afirmam que relações humanas são fundamentais para sua qualidade de vida, um índice superior às demais economias emergentes. Isso indica que o trabalhador brasileiro tem um modelo de bem-estar ancorado em comunidade, afeto, apoio emocional e senso de pertencimento.
Não por acaso, as três principais formas de envolvimento pessoal no país são:
- Atividades sociais, como eventos comunitários, encontros com amigos e voluntariado
- Religião, que aparece como pilar emocional, cultural e de organização da vida
- Esportes, associados à saúde mental e ao manejo do estresse
A religião, em particular, desempenha um papel que extrapola o campo espiritual:
- 40% dos brasileiros se dizem engajados em práticas religiosas
- 29% observado em outras economias emergentes.
Isso reforça que, no Brasil, a experiência de bem-estar é profundamente marcada por vínculos e rituais coletivos.
Salário importa — mas não basta
Mesmo com todas as transformações culturais sobre o trabalho, o salário segue como prioridade para a maioria dos profissionais: 53% ainda o consideram o principal fator de permanência na empresa.
No entanto, esse peso vem dividido com outra tendência crescente: a busca por benefícios que conversem com a vida real. Hoje, 36% dos trabalhadores valorizam empresas que oferecem soluções personalizadas, como apoio psicológico, flexibilidade de horário, programas de bem-estar, cuidado com dependentes e aprendizado contínuo.
Segundo o estudo, companhias que conseguem reter e engajar talentos são aquelas que equilibram três pilares:
- Autonomia e oportunidades de crescimento, garantindo liberdade e caminhos de evolução
- Conexões humanas autênticas e um ambiente positivo, que reforçam a sensação de pertencimento
- Benefícios competitivos, adaptados às necessidades individuais e aos ciclos de vida
Esses elementos ajudam a explicar o que realmente inspira o brasileiro no trabalho. O que mais realiza os profissionais é:
- Um ambiente acolhedor (43%), que valoriza segurança psicológica
- Reconhecimento pelo que fazem (38%), tanto financeiro quanto emocional
Em outras palavras, o trabalhador quer ser visto, ouvido e respeitado.
O futuro do trabalho
No final, a pesquisa mostra que os brasileiros querem trabalhar bem, mas viver melhor. E isso muda as expectativas sobre as empresas.
Para reter talentos, organizações precisam entregar mais do que salários competitivos. Os profissionais esperam:
- Relações mais humanas, baseadas em respeito e empatia
- Ambientes saudáveis, com segurança psicológica e inclusão
- Reconhecimento real, que valorize contribuições individuais
- Flexibilidade, para que possam adaptar o trabalho aos ciclos pessoais
Para Galetol, da Pluxee, essa é a nova base das relações de trabalho. “Como em qualquer relação, engajamento é reciprocidade. As empresas precisam reconhecer o momento de vida de cada pessoa, e isso muda tudo.”
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Por Layane Serrano
