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A prisão de Bolsonaro e seus impactos em 2026

Aluizio Falcão Filho
24 de novembro de 2025

Um dos efeitos mais visíveis da polarização política é a complacência que existe em relação aos aliados ideológicos. É como se houvesse dois mundos: em um, qualquer ação é criticada; em outro, tudo pode se relevado. Em relação à prisão de Jair Bolsonaro, por exemplo, percebeu-se em muitos setores da direita uma revolta em relação ao encarceramento do ex-presidente. Sobre a tentativa de violação da tornozeleira, por exemplo, houve uma tentativa de minimizar o episódio, alegando-se que o ex-presidente tinha agido daquela forma durante um ato de desespero, surto psicótico, efeitos de medicação pesada ou coisa parecida.

Entende-se que Bolsonaro esteja abalado psicologicamente e que tenha passado por um período em que enfrenta seríssimos problemas de saúde. Mas vamos imaginar um cenário alternativo, lembrando o que aconteceu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2018, quando teve a prisão decretada pelo então juiz Sergio Moro. Imaginemos, então, que Lula tivesse sido aprisionado em sua casa, em vez de encaminhado à carceragem da Polícia Federal em Curitiba. E se, nesse processo, Lula tivesse tentado queimar sua tornozeleira eletrônica e admitido isso em gravação de vídeo? Nessas circunstâncias, aqueles que relevam a atitude de Bolsonaro teriam a mesma complacência com o petista? Dificilmente.

Os apoiadores do ex-presidente, no entanto, replicam que seis meses atrás o ex-presidente Fernando Collor de Mello — que cumpre prisão domiciliar — ficou 36 horas com a tornozeleira desligada e não foi encaminhado a uma unidade carcerária, como ocorreu com Bolsonaro. A semelhança entre os dois casos é que o relator do processo é o mesmo: o ministro Alexandre de Moraes. Ainda não há mais detalhes sobre o ocorrido com Collor. Mas um erro não justificaria o outro. Se houve dolo por parte do controlador da Gazeta de Alagoas, ele deveria ter sido punido, como foi o capitão reformado.

Os acontecimentos deste final de semana terão impactos diretos na dinâmica das eleições de 2026. Apesar de comemorar a prisão do oponente, o PT não necessariamente sai ganhando com o destino de Jair Bolsonaro. É muito possível que o bolsonarismo sofra um encolhimento com o afastamento de seu líder e isso reduza significativamente o clima de polarização no país.

Ocorre que Lula precisa manter a chama do antagonismo viva para continuar com chances fortes em 2026. Com a prisão de Bolsonaro, os embates ideológicos perdem força e o presidente pode ser prejudicado com o eventual interesse dos eleitores de centro em outro candidato.

O senador Flávio Bolsonaro, que era cogitado para tomar o lugar no pai em uma cédula presidencial, também saiu chamuscado após o incidente do final de semana. É que seu chamado por uma vigília em frente à casa de Bolsonaro foi interpretado pelo juiz Alexandre de Moraes como uma tentativa de tumulto que poderia resultar em uma fuga do ex-presidente.

O ministro do STF tem mostrado tolerância zero com qualquer tema relacionado à família Bolsonaro, especialmente depois que foi atingido pela Lei Magnitsky. Espanta-se que o senador Flávio não tenha imaginado que haveria alguma reação por parte de Moraes diante de tal inciativa. Se a prisão de Bolsonaro tivesse sido motivada apenas por isso, teríamos a possibilidade de uma discussão jurídica bastante palpitante, pois os motivos de Moraes poderiam ser debatidos. Mas a tentativa de violação da tornozeleira deixou tudo isso em segundo plano, apesar das tentativas dos advogados de defesa do ex-presidente em maximizar o uso da vigília como motivo para decretar a prisão.

É difícil compreender as ações de Bolsonaro e de seu filho. Caso não tivesse havido a convocação para a vigília e o uso do “ferro quente” na tornozeleira, provavelmente Bolsonaro continuaria em sua casa. Só resta, assim, uma interpretação (tirando a conclusão de muitos, de que o ex-presidente não está bom das ideias): a família Bolsonaro resolveu partir para o tudo ou nada e provocar uma prisão inesperada com o intuito de comover a opinião pública. Isso até faria sentido, embora a lógica seja tortuosa. O problema é que o vídeo mostrando a tornozeleira destruída e a voz pastosa de Bolsonaro no fundo são elementos que depõem muito contra a conduta do ex-presidente.

O episódio expõe de forma clara como a polarização política molda percepções e julgamentos. A complacência seletiva diante de aliados e a crítica implacável contra adversários criam um ambiente em que a coerência se perde e a narrativa se sobrepõe aos fatos. A tentativa de violação da tornozeleira eletrônica não apenas fragilizou a defesa do ex-presidente, como também revelou a dificuldade da família Bolsonaro em lidar com os limites impostos pela Justiça.

Ao mesmo tempo, o afastamento de Bolsonaro abre espaço para uma reconfiguração do cenário político, reduzindo a intensidade da polarização e colocando em risco a estratégia de Lula de manter vivo o antagonismo que sustenta sua força eleitoral. O resultado é um quadro de incerteza, no qual tanto a direita quanto a esquerda precisam repensar como vão sensibilizar os eleitores que buscam alternativas fora desse ambiente polarizado.

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Comentários

Respostas de 2

  1. A real é que Bolsonaro (e isso parece fazer parte do DNA da família) se julga “acima das leis”. Sua insurgência (desde os tempos em que “serviu” ao exército) mostra uma enorme dificuldade de respeitar as leis. Como todo líder autoritário que pensa: “a lei sou eu”. Deu largas mostras disso, desde sempre. Como soldado, como deputado, como presidente…e agora, como presidiário.
    E vc tem razão em dizer que, nem por causa disso, o cenário está facilitado para Lula. O povo está cansado dessa coisa “nós X eles”. Não acho impossível o surgimento de uma 3a via, mais de centro, que consiga colar a idéia da união, que acabe “correndo por fora”. A esquerda está desmobilizada. A direita, desorganizada/atrapalhada. A ver.

  2. A real é que Bolsonaro (e isso parece fazer parte do DNA da família) se julga “acima das leis”. Sua insurgência (desde os tempos em que “serviu” ao exército) mostra uma enorme dificuldade de respeitar as leis. Como todo líder autoritário que pensa: “a lei sou eu”. Deu largas mostras disso, desde sempre. Como soldado, como deputado, como presidente…e agora, como presidiário.
    E vc tem razão em dizer que, nem por causa disso, o cenário está facilitado para Lula. O povo está cansado dessa coisa “nós X eles”. Não acho impossível o surgimento de uma 3a via, mais de centro, que consiga colar a idéia da união, que acabe “correndo por fora”. A esquerda está desmobilizada. A direita, desorganizada/atrapalhada.

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