Durante as semanas em que a chamada PL Antifacção foi gestada, o relator Guilherme Derrite produziu seis versões do texto – e, neste percurso, o deputado conseguiu a proeza de desagradar gente graúda dos dois lados do ringue ideológico. Em uma das alternativas propostas, por sinal, o papel da Política Federal no combate à criminalidade foi exageradamente diluído e a iniciativa acabou descartada. Na última terça-feira, porém, a agonia chegou ao fim e o projeto foi finalmente aprovado.
Chama a atenção o placar da votação, uma derrota acachapante para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva: 370 contra 110. O resultado mostra como é diminuta a base de apoio do governo na Câmara Federal e, principalmente, como a relação entre Planalto e Centrão ruiu.
Sem apoio parlamentar, o governo terá sérias dificuldades para apoiar qualquer iniciativa daqui para frente, especialmente porque os centristas vão se unir em torno dos candidatos de oposição e não colocarão azeitona na empada de Lula, candidato à reeleição.
Com o Centrão se posicionando claramente como oposicionista, o presidente da Câmara, Hugo Motta, deixou para trás a postura dúbia e tirou um pé da canoa que afagava o governo. A escolha de Derrite como relator do PL Antifacção é um exemplo disso, até porque o deputado teve de se licenciar do cargo de secretário de Segurança Pública do estado de São Paulo para retornar ao Congresso. Além disso, Motta defendeu Derrite durante todo o processo em que o PL foi apreciado e debatido, mesmo nos momentos em que houve uma enxurrada de críticas.
O episódio também escancara a dificuldade do governo em articular uma narrativa convincente para sustentar suas pautas. A ausência de uma estratégia clara de convencimento junto aos parlamentares abriu espaço para que a oposição ocupasse o protagonismo e transformasse a votação em um teste de força política. O resultado foi uma demonstração pública de isolamento, que fragiliza a imagem de Lula como líder capaz de conduzir o Congresso.
A derrota no PL Antifacção não se limita ao campo legislativo, mas reverbera no cenário eleitoral. A percepção de que o presidente não consegue mobilizar sua base parlamentar alimenta o discurso oposicionista de que o governo perdeu a capacidade de governar. Essa narrativa, se consolidada, pode se tornar um obstáculo significativo para a campanha de reeleição, já que vai reverberar a ideia de um Planalto enfraquecido e sem rumo.
Outro ponto relevante é o impacto sobre os aliados tradicionais do governo. Partidos que até então se mantinham em posição de neutralidade começam a avaliar o custo político de permanecer próximos ao presidente. A tendência é que esses grupos se afastem gradualmente, buscando preservar capital político e evitar desgaste junto ao eleitorado.
Por fim, a votação do PL Antifacção funciona como um termômetro da governabilidade. Se o Planalto não conseguir reverter a lógica de isolamento e reconstruir pontes com o Centrão, a perspectiva é de que novas derrotas se acumulem em pautas estratégicas. O desafio de Lula será encontrar meios de recompor sua base e demonstrar capacidade de articulação, sob pena de ver sua agenda travada e sua autoridade corroída dentro da própria Câmara.