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La Niña prolongada acende alerta bilionário no agro

Lorena Scavone Giron
5 de novembro de 2025
Fenômeno climático deve persistir até o outono de 2026, elevando a chance de quebras regionais, atrasos no plantio e volatilidade nos preços; especialistas defendem que informação e gestão podem transformar o risco em oportunidade

A presença da La Niña, mesmo em baixa intensidade, mas com duração prolongada, acendeu um alerta no agronegócio brasileiro. O fenômeno deve afetar diretamente culturas como soja e milho na safra 2025/26, sobretudo na Região Sul, onde há risco de chuvas irregulares, veranicos prolongados e perda de umidade do solo em fases decisivas do ciclo produtivo.

“Mesmo sendo de baixa intensidade, este evento tem potencial relevante devido à duração e ao momento em que ocorre. A coincidência entre La Niña e o período crítico das lavouras aumenta o risco de perdas regionais expressivas”, afirma Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro.

Segundo previsões meteorológicas, a La Niña tem probabilidade alta de persistir até o início do outono de 2026. O cenário preocupa exportadoras, seguradoras e produtores, que podem enfrentar desde quebras regionais até atrasos generalizados no plantio.

Sul em alerta

A Região Sul é o epicentro da preocupação. Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná podem enfrentar déficit hídrico e períodos longos de estiagem. No Paraná, por exemplo, já há projeções de chuvas abaixo da média e mal distribuídas, o que pode comprometer germinação e desenvolvimento inicial da soja e do milho de verão.

O impacto financeiro pode ser significativo. Considerando uma produção nacional de cerca de 350 milhões de toneladas de grãos, uma quebra concentrada de 15% na região Sul pode gerar prejuízos entre 10 e 15 bilhões de reais, dependendo da cotação internacional das commodities. Esse número inclui apenas o valor físico da produção e não contempla custos colaterais, como irrigação ou armazenagem.

“Se houver quebra relevante no Sul enquanto outros países da América do Sul também enfrentam restrições hídricas, o mercado internacional tende a reagir com alta de preços. Quem conseguir colher dentro do calendário pode capturar valor”, avalia Pliego.

Efeito desigual no país

Nem todo efeito da La Niña é negativo. No Centro-Oeste e parte do Sudeste, o fenômeno está antecipando as chuvas e permitindo que o plantio avance de forma acelerada.

“Esse padrão climático mais úmido tem favorecido o retorno antecipado das chuvas e impulsionado o avanço da semeadura”, diz Pliego. “O Mato Grosso já havia semeado mais de 60% da área prevista em meados de outubro, acima da média histórica.”

No Norte e no Nordeste, a previsão é de precipitações acima da média, o que tende a favorecer pastagens e recarregar o solo para grãos e pecuária.

“O sucesso da safra dependerá do equilíbrio entre clima, manejo e gestão. Com informação e planejamento, o La Niña pode deixar de ser um risco e se transformar em oportunidade de eficiência e rentabilidade”, afirma a analista.

Plantio tardio aumenta o desafio da soja no Centro-Oeste

A janela de plantio encurtada exige decisões mais técnicas. A soja é uma planta de dia curto e pode florescer mais cedo se a semeadura atrasar, o que reduz o enchimento de grãos e a produtividade. O manejo correto passa por fertilidade do solo, escolha de cultivares e monitoramento da radiação solar.

“Produtividade e rentabilidade não são frutos do acaso. São resultado do alinhamento entre janela de plantio, radiação solar, fertilidade do solo e gestão agronômica inteligente”, explica Fernando Batista, coordenador comercial do Agrolink.

Mercado, seguro e logística entram no jogo

Os efeitos da La Niña não ficam restritos à porteira da fazenda. Também afetam:

  • formação de preços, com maior volatilidade internacional
  • contratação de seguro agrícola, especialmente no Sul
  • estratégias de hedge para exportadores diante da oscilação cambial
  • logística e armazenagem, já que produção menor altera fluxo de grãos

“Planejamento e proteção contratual serão decisivos para definir quem apenas absorve prejuízo e quem consegue capturar oportunidades de preço”, reforça Pliego.

Próximos meses serão decisivos

Modelos do CPC NOAA indicam cerca de 55% de probabilidade de neutralidade climática apenas no início de 2026. Isso significa que os efeitos críticos da La Niña se concentrarão entre dezembro e fevereiro, período determinante para soja, milho e algodão.

Se a previsão se confirmar, o agronegócio brasileiro enfrentará um ciclo de risco elevado, margens pressionadas e preços mais voláteis. Ao mesmo tempo, poderá encontrar prêmios de exportação e vantagem competitiva para quem mantiver estratégia, seguro e tecnologia de manejo.

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