Mario Otávio Gomes, executivo da Fast Shop, também foi alvo de mandado de prisão, assim como o auditor fiscal paulista Artur Gomes da Silva Neto, suspeito de ajudar a desviar mais de R$ 1 bilhão em esquema de créditos tributários
O empresário Sidney Oliveira, dono da da rede Ultrafarma, foi preso na manhã desta terça-feira (12), em operação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) que investiga um esquema de corrupção envolvendo empresários, executivos e auditores fiscais tributários do Departamento de Fiscalização da Secretaria de Estado da Fazenda. Além dele, Mario Otávio Gomes, executivo da Fast Shop, foi alvo de mandado de prisão preventiva. No centro do esquema, o fiscal de tributos estadual Artur Gomes da Silva Neto.
O proprietário da Ultrafarma foi localizado e detido na chácara que reside, em Santa Isabel, na região do Alto Tietê. A Operação Ícaro foi deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão aos Delitos Econômicos (Gedec) e tem apoio da Polícia Militar (PM). A investigação identificou um grupo criminoso responsável por favorecer empresas do setor de varejo em troca de vantagens indevidas que somariam cerca de R$ 1 bilhão em desvios.
Fiscal de tributos estadual, Gomes foi detido em um apartamento na zona norte da capital. Ele manipularia processos administrativos para facilitar a quitação fajuta de créditos tributários às empresas. Em contrapartida, receberia pagamentos mensais de propina por meio de uma empresa registrada em nome de sua mãe, uma professora de 76 anos. Com o auditor foram encontrados cerca de R$ 1,2 milhão em espécie e não declarados. Por suas mãos teriam passado boa parte do R$ 1 bilhão desviados da receita estadual. Em 2023, a empresa declarou R$ 2 bilhões, mais do que foi as autoridades suspeitam.
Os investigados poderão responder pelos crimes de corrupção ativa e passiva, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Além das prisões, os agentes dão cumprimento a diversos mandados de busca e apreensão em endereços residenciais dos alvos e nas sedes das empresas investigadas.
Cérebro do esquema
O auditor fiscal preso na operação era o cérebro do esquema de corrupção, segundo promotores que participaram da investigação. “As empresas passaram a pagar centenas de milhões de reais para auditores para auxiliarem essas empresas a conseguirem ressarcimento de crédito de ICMS a que tinham direito na Secretaria da Fazenda”, explicou o promotor João Ricupero.
O auditor fiscal tinha um parceiro, responsável por lavar o dinheiro, que também é alvo da investigação. Na residência dele, em Alphaville, foram encontrados dois pacotes com esmeraldas, R$ 330 mil e US$ 10 mil (cerca de R$ 54,2 mil), além de € 600 euros (R$ 3.778,62 na cotação de hoje) dentro de um cofre.
De acordo com o MP, outras grandes empresas do setor varejistas podem ter se valido do mesmo esquema para conseguir a liberação dos créditos tributários. No entanto, não foi divulgado o nome de mais nenhuma outra empresa porque as investigações ainda estão em curso. “O desafio é verificar se há outros auditores envolvidos na prática de corrupção”, adiantou o promotor Roberto Bodini.
Artur Gomes da Silva Neto coletava as notas fiscais, necessárias para o ressarcimento, fazia ele próprio o pedido de ressarcimento na Secretaria da Fazenda, acompanhava o pedido e, depois, ele mesmo deferia o ressarcimento de créditos. “Em relação à Ultrafarma, ele tinha, inclusive, o certificado digital da empresa para fazer os pedidos de ressarcimento”, disse Ricupero.
Segundo o promotor Igor Volpato Bedone, Silva Neto pedia e deferia o pedido que ele mesmo fazia. “Ele ficava com o certificado da empresa. Então, era um ciclo completo”, afirmou. Em contrapartida, o auditor recebia pagamentos mensais de propina.
De acordo com o MP, o que chamou a atenção e deu início à investigação foi a evolução patrimonial incompatível da empresa em nome da mãe do fiscal preso, chamada Smart Tax. A sede da empresa fica em Ribeirão Pires, no ABCD Paulista, e, segundo o MP, é fantasma e não tem qualquer capacidade de prestar serviço de assessoria tributária.
Nos próximos dias, o MP pretende ouvir funcionários das empresas para saber se apenas cumpriam ordens ou se tinham poder decisório sobre o esquema de corrupção.
Sidney e a Ultrafarma
Aparecido Sidney de Oliveira nasceu em Nova Olímpia, no interior do Paraná, em 15 de novembro de 1953. Começou cedo no balcão de uma farmácia local, aos nove anos, aprendendo não apenas sobre medicamentos, mas também sobre a importância da relação com o cliente. Na adolescência, passou a vender medicamentos em cidades vizinhas, levando remédios diretamente a consumidores que muitas vezes não dispunham de farmácias nas proximidades.
Essa experiência itinerante deu a ele uma visão prática de logística, precificação e negociação. Com o tempo, conseguiu abrir sua própria farmácia e, até meados dos anos 1980, administrava uma pequena rede de 12 lojas no Paraná. Oliveira vendeu as lojas e se mudou para São Paulo em busca de novas oportunidades. Abriu uma farmácia no Jabaquara, zona sul da capital, mas enfrentou dificuldades para competir com redes maiores. Em 1998, criou a Drogavida na tentativa de ganhar escala no mercado paulista. A marca, porém, foi vendida pouco depois diante da pressão dos concorrentes.
O dono da Ultrafarma construiu a rede, em 2000, como uma extensão de sua própria figura, misturando marketing agressivo, descontos acima da média do mercado e uma proximidade com consumidores ao adotar uma persona popular. A rede nasceu como aposta em genéricos, quando o produto ainda enfrentava desconfiança no país. Inspirado por modelos observados no exterior, Oliveira trocou a lógica das lojas de bairro pelo televendas e, mais tarde, pelo e-commerce — hoje responsável pela liderança da empresa nas vendas online de medicamentos, com mais de 1 milhão de clientes ativos e 15 mil itens no catálogo.
Nos últimos anos, a empresa diversificou sua atuação com licenciamentos, como a Ultrafarma Popular e as Óticas Ultrafarma, e manteve planos ambiciosos de expansão nacional. O faturamento projetado para 2023 ultrapassou R$ 3 bilhões.
Outro lado
Em nota, a Secretaria de Estado da Fazenda informou que instaurou um processo administrativo para apurar a conduta do servidor envolvido e que solicitou formalmente ao MP compartilhamento das informações. Procurada, a Fast Shop informou que ainda não teve acesso ao conteúdo da investigação, e está colaborando com o fornecimento de informações às autoridades competentes.
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