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Tom Jobim: 30 anos sem este gênio que amava a natureza

Aluizio Falcão Filho
1 de dezembro de 2024

No próximo dia 8, será o trigésimo aniversário da morte de Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. O grande maestro, talvez o maior nome de nossa música, foi frequente e injustamente acusado de copiar o jazz americano em sua obra – logo ele, que tem a alcunha “brasileiro” em seu nome completo. Tom era um grande frasista e conseguiu resumir o nosso país em cinco frases.

A primeira: “O Brasil não é para principiantes”. Mais uma: “No Brasil, o sucesso é quase uma ofensa pessoal”. E a terceira, com direito a palavrões que são importantes para montar o contexto: “Os Estados Unidos são do c…, mas é uma m…; o Brasil é uma m…, mas é do c…”. Mais uma: “Assim como o brasileiro foi educado para perder, o americano foi educado para ganhar”. E a última: “O Japão é um país paupérrimo, com vocação para a riqueza; nós somos um país riquíssimo, com vocação para a pobreza”.

À primeira vista, diante dessas máximas, Tom pareceria ser um ressentido. Mas poucas pessoas amaram tanto a vida e o nosso país como ele. Não era dono de uma personalidade fácil. Mas, rompidas suas barreiras iniciais, era dócil e generoso. Sempre cultivou um traço de cinismo que o fazia dono de uma verve espetacular. Quer um exemplo? Perguntado se era uma pessoa feliz, saiu-se com essa: “Quando me casei, descobri a felicidade. Mas aí já era tarde demais”.

Lembro que ele não fazia muito sucesso nas redações, pois aproveitava qualquer entrevista para falar de natureza e da necessidade de se preservar o meio ambiente. Isso mesmo: Tom Jobim foi um ambientalista antes que isso virasse moda. E, por essa razão, os jornalistas torciam o nariz quando alguém sugeria uma pingue-pongue com ele. “Não, não, ele vai querer falar de urubu e árvore em vez de música, não vai rolar”, era o que diziam os editores.

 “Toda a minha obra é inspirada na Mata Atlântica – ou melhor, nos 5% que sobraram dela”, dizia ele, que era capaz de enumerar as cinco espécies de urubu que existem no país. Seus favoritos eram o jereba, o peba e o urubupeba. Mas ele gostava de chamar a atenção para a diversidade de nomes que cada espécie tinha. Só o jereba tinha mais de trinta.

Imagino o que se passaria pela cabeça do velho maestro se estivesse entre nós para experimentar as mudanças climáticas que vieram com a negligência da humanidade com a natureza: As inundações no Sul; a seca na Amazônia; o calor desmedido em São Paulo no inverno e o frio durante a primavera. Talvez ele se tornasse um xiita empedernido – ou usasse sua imagem internacional para trabalhar contra a devastação do verde.

O Tom compositor era mais conhecido por suas melodias que receberam letras de monstros sagrados como Chico Buarque e Vinícius de Moraes. Mas ele também escreveu várias letras inesquecíveis – e entendeu o amor como poucos. Alguns exemplos:

+ “Quero a vida sempre assim com você perto de mim/ Até o apagar da velha chama”. (Corcovado)

+ “Vou te contar, os olhos já não podem ver/ Coisas que só o coração pode entender/ Fundamental é mesmo o amor/ É impossível ser feliz sozinho”. (Wave)

+ “É, só eu sei quanto amor eu guardei/ sem saber que era só pra você”. (Só tinha de ser com você)

+ “Triste é viver na solidão/ Na dor cruel de uma paixão/ Triste é saber que ninguém/ Pode viver de ilusão/ Que nunca vai ser, nunca vai dar/ O sonhador tem que acordar”. (Triste)

+ “São as águas de março fechando o verão/ É a promessa de vida no teu coração”.

Minha favorita? “Lígia”, pois é a descrição de uma história de amor mal resolvida entre o próprio Tom e Lygia Marina de Moraes (que tinha olhos verdes e não morenos). Tom a conheceu no emblemático bar Veloso (onde ele e Vinicius tiveram a ideia para “Garota de Ipanema” anos antes) e, sabendo que o amigo Fernando Sabino a conhecia, pediu o telefone dela. O que Tom não sabia era que Sabino e Lígia eram namorados. Por isso, o escritor mineiro deu o telefone errado ao maestro.

Desta confusão é creditada o verso: “Quando eu lhe telefonei/ Desliguei, foi engano, seu nome não sei”. A letra original era um pouco diferente, mas Chico Buarque deu uma arredondada na versão final, gravada por ele em 1974 (“E quando eu lhe telefonei/ foi por um triste engano/ seu nome eu não sei”). Há uma outra versão, segundo a qual esse verso foi incorporado à versão final pelo próprio Chico. O piano, na gravação do disco “Sinal Fechado”, é sublime, elegante na medida. Será que é do próprio Tom?

“Lígia” é um retrato de amor impossível, igual àqueles que todos nós experimentamos na vida:

“Eu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba
Não vou a Ipanema
Não gosto de chuva
Nem gosto de sol

E quando eu lhe telefonei
Desliguei foi engano
Seu nome não sei
Esqueci no piano
As bobagens de amor
Que eu iria dizer
Não, Lígia, Lígia

Eu nunca quis tê-la ao meu lado
Num fim de semana
Um chope gelado
Em Copacabana
Andar pela praia até o Leblon
E quando eu me apaixonei
Não passou de ilusão
O seu nome rasguei
Fiz um samba canção
Das mentiras de amor
Que aprendi com você
É Lígia, Lígia

E quando você me envolver
Nos seus braços serenos
Eu vou me render
Mas seus olhos morenos
Me metem mais medo
Que um raio de sol
Lígia, Lígia
”

Grande Tom Jobim. Você faz muita falta nesses dias turbulentos. Seja pela sua inteligência transbordante ou pelo talento insuperável.

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