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Polarização: como direita e esquerda enxergam a IA?

Aluizio Falcão Filho
19 de outubro de 2024

Estamos vivendo uma época em que tudo pode ser polarizado nos debates que ocorrem diariamente nas redes sociais. Mas, curiosamente, há um tema que tem muito a ver com o universo digital mas ainda não passa pelo filtro ideológico dos debatedores. Qual seria esse assunto? A inteligência artificial.

Devo confessar que não cheguei a essa conclusão. Quem registrou esse fenômeno foi o escritor israelense Yuval Harari, em seu último livro, “Nexus”, que trata sobre redes de informação e sua influência ao longo do história humana. Um pouco antes da metade da narrativa, Harari escreve o seguinte:

Qual é a diferença, por exemplo, entre as políticas de IA dos republicanos e dos democratas? Qual é a posição da direita acerca da IA e qual é a posição da esquerda? Os conservadores são contra a IA pela ameaça que representa à cultura tradicional que tem como centro o ser humano ou são a favor porque vai impulsionar o crescimento econômico ao mesmo tempo que diminui a necessidade de trabalhadores imigrantes? Os progressistas são contra a IA por conta dos riscos implícitos de desinformação e de aumento de preconceitos ou a abraçam como um meio de gerar abundância capaz de financiar um abrangente Estado de bem-estar social? Difícil saber, porque até pouco tempo atrás republicanos e democratas, e a maioria dos partidos políticos do mundo, não refletiam ou não falavam muito a respeito dessas questões”.

Uma possibilidade sobre essa falta de posições polarizadas seria a ignorância que paira sobre o assunto. No entanto, polarizamos temas dos quais não temos muito conhecimento científico, caso das vacinas utilizadas durante a pandemia de Covid-19. Milhões de pessoas sem diploma médico se jogaram em debates técnicos nas redes do mundo inteiro, usando fragmentos de pesquisas do Google, argumentando contra e a favor sobre o uso dos imunizantes.

Com a IA, no entanto, estamos em um terreno desértico em termos de informações que façam sentido para os leigos, uma vez que no epicentro do tema estão os famosos algoritmos. O cidadão comum não sabe como são calculadas essas fórmulas ou como é que elas conseguem capturar e analisar milhões de dados por minuto. Ou ainda como é que esses algoritmos conseguem criar imagens, opiniões e textos inteiros aparentemente a partir do nada.

Nesta semana mesmo, instigado por um amigo, entrei em um aplicativo chamado Suno. Trata-se de uma ferramenta de IA que possibilita a qualquer um – qualquer um mesmo – a composição de canções de diversos gêneros. Basta escolher o ritmo desejado, que tipo de melodia você quer, e dar algumas pistas sobre o que a letra deve conter (apenas algumas palavras resolvem a questão). O resultado é surpreendentemente bom, especialmente se o briefing estiver bem-feito.

Para o reles mortal, no entanto, parece um truque de mágica, incompreensível para quem não tem qualquer intimidade com a tecnologia. Esse tipo de profundo desconhecimento nivela padrões ideológicos e deixa direitistas e esquerdistas sem sabe que posição tomar.

Já conheci gente de direita e de esquerda que são entusiastas da nova tecnologia – e o mesmo acontecendo com pessoas que são contrárias à inteligência artificial e são rivais na esfera política. Paralelamente, há pessoas de esquerda que são a favor de um rígido controle sobre máquinas que pensam sozinhas e o mesmo acontece entre quem está no quadrante ideológico de direita.

Ainda vai demorar um tempo para que cheguemos a mais conclusões sobre esse tema. Entretanto, não adianta ser contrário à IA: este trem já deixou a estação e vai fazer parte de nossas vidas, queiramos ou não.

De qualquer forma, agora vale a pena mergulharmos em nossas mentes e pensarmos: afinal, o que devemos pensar sobre a inteligência artificial? De minha parte, só desejo uma coisa: que a IA tenha limites para que nosso planeta não vire uma realidade distópica como vimos em “O Exterminador do Futuro” e “Matrix”. Resolvido esse problema, que venha a inteligência artificial. Rapidamente.

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